Como os mercados brasileiros de agricultura e pecuária serão impactados pelo coronavírus?

Author Flavia Bohone, Brazil agriculture and fertilizer editor

O surto de coronavírus levou a bloqueios em todo o mundo e seus impactos nas economias e nos mercados de commodities ainda não foram totalmente estimados.

No Brasil, onde o governo espera que o pico da pandemia chegue ao país entre abril e maio, vários setores estão monitorando de perto seus impactos, especialmente agricultura e pecuária, que representam mais de 21% do PIB do Brasil, segundo a Confederação da Agricultura e Pecuária do país (CNA).

A China, onde o vírus foi detectado pela primeira vez, atrasará o reabastecimento de seu rebanho, já que a cadeia de suprimentos de logística e alimentação animal do país foi severamente interrompida pelo surto. Nesse cenário, as exportações brasileiras de carne para a China podem crescer este ano, depois que o país asiático se tornou o principal destino dos embarques brasileiros de carne bovina, suína e de aves em 2019.

Embora os produtores de carne brasileiros possam ver um lado positivo desse cenário sem precedentes, a interrupção da logística no maior mercado asiático pode ameaçar o acesso do Brasil ao fornecimento de pesticidas. No ano passado, a China supriu quase 40% da demanda brasileira de pesticidas, uma dependência ainda mais concentrada para herbicidas, com a China fornecendo 99% da demanda brasileira de glifosato e imazaquim. Em função disso, os agricultores brasileiros podem estar perdendo o sono com a preocupação de que os efeitos de uma interrupção prolongada do transporte possam levar a uma interrupção mais significativa do fornecimento de produtos químicos agrícolas no Brasil.

Com todas as cadeias logísticas de longo curso enfrentando cenários imprevisíveis, o transporte marítimo representa outro risco potencial para as exportações brasileiras de safras. Nesse caso, mesmo que a pandemia global ainda não tenha afetado as previsões desta temporada para as exportações brasileiras de soja e a demanda chinesa permaneça forte, pode haver obstáculos para atender à demanda por transporte marítimo em curto prazo.

Os impactos do surto de coronavírus também podem atingir os preços da alimentação animal, já que a pandemia pode levar a uma queda na demanda por essas mercadorias. Se isso acontecer, os preços do farelo de soja no Brasil poderão cair, tornando-o mais atraente do que os grãos destilados secos (DDG, na sigla em inglês) para suprir os compradores. Co-produto de etanol à base de milho, o DDG é uma ração de baixo custo, rica em proteínas e fibras para bovinos, suínos e aves. Os preços do DDG e da farinha de soja têm subido mas, se este último mudar de rumo e restringir seu prêmio ao DDG, a farinha de soja poderá ser preferida.

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