Falando de Mercado: Mudanças na estratégia de precificação de combustíveis da Petrobras

Author Argus

Os recentes leilões de combustíveis realizados pela Petrobras com base nos contratos da Nymex são um dos muitos sinais de uma transformação em curso no setor de downstream brasileiro em direção a um mercado aberto e em expansão.

Como essas leilões funcionam e como eles impactam as importações de combustíveis do Brasil?

No episódio desta semana da série Falando de Mercado, Camila Dias, chefe de redação da Argus no Brasil, e Amance Boutin, editor da publicação Argus Brasil Combustíveis, analisam essa mudança na forma como o mercado brasileiro de combustíveis opera.

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Transcript

Camila - Olá e bem-vindos ao ‘Falando de Mercado’, uma série de podcasts trazidos semanalmente pela Argus sobre os principais acontecimentos com impacto para os setores de commodities e energia no Brasil e no mundo. Meu nome é Camila Dias, e eu sou chefe de redação da Argus no Brasil. No episódio de hoje eu converso com Amance Boutin, editor da publicação Argus Brasil Combustíveis, sobre recentes mudanças na estratégia de precificação de derivados de petróleo adotadas pela Petrobras. Bem-vindo, Amance.

Amance – Obrigado, Camila.

Camila – Amance, a Petrobras organizou no dia 24 de julho um leilão de produtos derivados com precificação atrelada a contratos futuros indexados na bolsa de Nova York. Esse teria sido o segundo leilão operado pela empresa nesta modalidade. O que diferencia este leilão dos outros? O que está levando a Petrobras a favorecer esse tipo de comercialização?

Amance - A Petrobras já organizou no mínimo 10 leilões para venda de combustíveis desde o início do ano. Estes leilões permitem que ela possa gerenciar seus potenciais excedentes de estoques com mais flexibilidade, particularmente em um momento de queda de demanda. Ela cede um pouco no preço, mas consegue impulsionar volumes e assim evita acumular estoques como se viu ao redor do mundo no início da pandemia, quando empresas tiveram que usar navios tankers para estocar produto.

O leilão também permitiu que ela garantisse a isonomia de preços com todos os agentes de maneira aberta e transparente, que é um requisito na regulação atual. A diferença é que desta vez ela deixou de usar seu preço de tabela em reais por litro e passou a usar referências de preços cotadas na bolsa de Nova York liquidadas em dólares.

Camila - Por que essa mudança? O que um leilão nesses moldes de preço sinaliza para o mercado de diesel e gasolina no Brasil?

Amance - Essa é uma mudança muito relevante, porque a partir do momento que a Petrobras vende combustíveis atrelados a contratos futuros e precificados em dólares, ela muda seu posicionamento comercial e estratégico. E automaticamente passa a concorrer com distribuidoras e tradings nesta modalidade.

Mas a Petrobras vendeu nesse último leilão apenas 16 por cento da gasolina que ofertou. A oferta total foi de 30.000m³, e chegou a vender cerca de 5.000m³ de gasolina A para entrega entre 20-23 de agosto em Ipojuca (Pernambuco) a um desconto de 6,6 centavos de dólar por galão norte-americano em relação aos contratos futuros negociados na Nymex com vencimento em setembro, em linha com seu lance inicial oferecido. Apenas como comparação, o indicador semanal da Argus para entrega de gasolina A importada para até dois portos no Norte e Nordeste fechou em um desconto de 7,5 centavos de dólar por galão no mesmo dia.

A estatal também organizou no mesmo dia um leilão para venda de 48.000m³ de diesel S10 para entrega entre 15-18 de agosto na sua base de Itaqui. Desse total, a Petrobnras vendeu 9.700m³, o o preço final apresentou um desconto de 1 centavo de dólar por galão em relação aos contratos futuros da Nymex com vencimento em setembro. O levantamento da Argus na mesma semana apontava um prêmio de 0,8 centavos de dólar por galão norte-americano no mercado spot. É importante ressaltar que o nosso indicador não considera os custos de nacionalização e transferência até o terminal portuário, que já vem embutidos na modalidade de venda da Petrobras.

Camila – Quer dizer então que a Petrobras vendeu estes volumes a preços mais atrativos do que o mercado internacional?

Amance - Os preços ofertados pela Petrobras foram atrativos sim, mas não chegaram a suscitar uma grande adesão, como se vê pelo baixo volume arrematado.

Camila – Por que?

Amance - Quem já importa de forma independente – que são as tradings ou distribuidoras – não se interessou porque já estava posicionado no mercado de importação para o mês de agosto. Ou seja, já tinha planejado e fixado o que eles pretendiam comprar, então não havia demanda para este tipo de venda do lado deles. Já do lado das distribuidoras regionais e independentes, que não costumam fazer sozinhas este tipo de operação de importação de combustíveis, a baixa adesão pode vir do perfil mais conservador em relação à estratégia de suprimento. Se podem comprar a um preço fixo e em reais, talvez não tenham tido interesse em abrir uma posição em dólar que necessita operações de hedge cambial e de produto na bolsa de Nova York. Estas operações carregam um fator de risco muito grande, além de um custo financeiro adicional.

Camila - Qual foi a reação dos participantes de mercado que atuam neste mesmo segmento?

Pelas conversas que tivemos com vários participantes de mercado, parece que houve um incômodo grande sobre esta nova modalidade de precificação oferecida pela Petrobras. Como a Petrobras já é de fato formadora de preço no mercado doméstico, alguns participantes questionaram a relevância de a estatal oferecer uma opção de precificação atrelada ao mercado internacional ao mesmo tempo em que ela dita o preço nas refinarias do país.

Alguns participantes também interpretaram estas vendas como um sinal muito negativo, no sentido de que elas iriam contra o movimento de abertura de mercado iniciado há quatro anos, pois afinal de contas a Petrobras estaria entrando num dos únicos segmentos do downstream onde ela não atuava antes, e que hoje é caracterizado por uma diversidade de players muito grande.

Camila - Quem são esses players e como eles atuam hoje no mercado brasileiro?

Amance - Hoje no Brasil na ponta importadora, além da Petrobras, você tem dois tipos de participantes. Um deles é o distribuidor, que importa cargas por conta própria para abastecer a sua rede e completar a oferta nacional da Petrobras, e que atende 80pc do mercado doméstico. Um outro tipo de participante é o trader, que compra cargas no mercado internacional e revende o produto para distribuidoras regionais e independentes que não tem escala ou estrutura para fazer essas operações sozinhas. Esta nova forma de comercialização de produto importado tende a competir mais com a figura da trading company, que toma este risco no mercado internacional para aproveitar as possíveis oportunidades de arbitragem no mercado doméstico brasileiro.

Camila - Muito obrigado, Amance.

Se você quiser saber mais sobre os impactos da pandemia no mercado global de commodities, acesse nosso microsite dedicado ao assunto em www.argusmedia.com/coronavirus. Voltaremos em breve com mais uma edição do “Falando de Mercado”. Até logo!

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