Falando de Mercado: Perspectivas para a safra brasileira de trigo

Author Argus

As perspectivas para a safra brasileira de trigo seguem positivas este ano, impulsionadas por condições climáticas favoráveis e pelo aumento da área plantada.

Projeções mais otimistas estimam uma colheita recorde do cereal em 2020. Qual a condição das lavouras brasileiras e como a alta produtividade deve impactar a balança comercial do produto?

No episódio desta semana da série Falando de Mercado, Flavia Bohone, Editora do relatório Argus Brasil Grãos e Fertilizantes, conversa com José Roberto Gomes, repórter de Agricultura e Fertilizantes, sobre as perspectivas para a safra brasileira de trigo este ano.

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Transcript

Flavia: Olá e bem-vindos ao ‘Falando de Mercado’ – uma série de podcasts trazidos semanalmente pela Argus sobre os principais acontecimentos com impacto para os setores de commodities e energia no Brasil e no mundo. Meu nome é Flavia Bohone, editora da publicação Argus Brasil Grãos e Fertilizantes. No episódio de hoje eu converso com José Roberto Gomes, repórter de Agricultura e Fertilizantes da Argus, sobre as perspectivas para a safra brasileira de trigo deste ano. Bem-vindo, José Roberto.

José: Olá, Flavia, e obrigado. Um prazer estar aqui.

Flavia: José, o plantio de trigo está praticamente concluído nos principais estados produtores. Como está o desenvolvimento das lavouras?

José: Flavia, de fato, o plantio de trigo já foi finalizado nas principais regiões produtoras do país. No Paraná, os trabalhos foram concluídos em meados de julho, enquanto no Rio Grande do Sul, o plantio terminou semana passada. Esses dois estados da região Sul são os dois maiores produtores de trigo do Brasil, respondendo por quase 90% de toda a safra nacional. E, olha, ambas as lavouras estão se desenvolvendo muito bem, com o clima colaborando de modo geral.

No Paraná, 90% do trigo está classificado como bom pelo Departamento de Economia Rural do estado, o Deral, apesar da falta pontual de chuvas em algumas localidades. Há um ano, isso estava em torno de 60%. No Rio Grande do Sul, a Assistência Técnica e Extensão Rural gaúcha, a Emater, disse que o tempo firme, com bastante sol e temperaturas elevadas, tem ajudado as lavouras a se desenvolver. Esse tempo também tem contribuído para a adubação nitrogenada, os tratos culturais e o controle de pragas.

Flavia: E como fica a perspectiva de produção de trigo em meio a esse cenário de clima favorável e bom desenvolvimento das lavouras?

José: Por ora, a perspectiva é positiva. Segundo o Deral, o Paraná deve colher 3,7mn t de trigo neste ano, um salto de 72% se compararmos com a safra de 2019. Mas é bom lembrar que no ano passado a safra no Paraná tinha sido prejudicada por problemas climáticos. No Rio Grande do Sul, a Emater projeta 2,2mn t, em linha com a produção do ano passado.

E se a gente for falar em âmbito nacional, o Brasil deve produzir 6,3mn t de trigo em 2020, 23% a mais do que na temporada passada, segundo a Companhia Nacional de Abastecimento, a Conab. E lembrando que a colheita de trigo deve começar ainda neste mês no país e se estender até o fim do ano.

Flavia: Alguns participantes do mercado dizem que o Brasil poderá produzir até acima do projetado pela Conab. O que justifica essa avaliação?

José: Pois é, Flavia. Consultores, analistas e outros agentes do mercado avaliam que podemos ter boas surpresas graças não só à condição climática favorável, mas também ao aumento de área plantada. Neste ano, o Brasil semeou cerca de 2,3mn ha com trigo, um aumento de 14% em relação a 2019, considerando-se os números da Conab.

Por isso existe essa avaliação de que o país poderia produzir um recorde superior a 7mn t de trigo em 2020. Isso leva em conta o clima favorável também no momento da colheita, sem chuvas em excesso, por exemplo, que poderiam atrapalhar os trabalhos de campo e reduzir a qualidade do cereal. Até agora, o maior volume de trigo já produzido pelo Brasil foi em 2016, com 6,7mn t.

Flavia: José, é sabido que o Brasil é um grande importador de trigo, já que a produção doméstica não é suficiente para atender à demanda. A perspectiva de uma colheita maior do que a esperada deve mexer com essa necessidade de importação, não?

José: Exatamente, Flavia. Como você disse, o Brasil é, de fato, um importador relevante de trigo. A Argentina é o nosso principal fornecedor, principalmente porque não incide tarifa de importação por fazer parte do Mercosul. Pra se ter uma ideia, em torno de 80% de todo o trigo comprado pelo Brasil no exterior vem da Argentina.

Olha, neste ano o Brasil deve importar um total de 7,3mn t de trigo – ou seja, deve importar uma quantidade maior do que a que deve produzir. É um volume considerável e reflete uma demanda firme por parte da indústria e a menor safra no ano passado, o que deixou os estoques apertados nos últimos meses. Mas essa necessidade de importação pode cair para algo como 5,5mn t no próximo ano, caso o país tenha mesmo uma safra cheia agora em 2020.

Flavia: José, você mencionou demanda firme por parte da indústria brasileira. Como está a moagem de trigo no país, ainda mais em um momento tumultuado como este por causa da pandemia de Covid-19?

José: Flavia, o processamento de trigo para produção de farinhas e outros itens tem crescido nos últimos anos. Em 2019, os moinhos brasileiros esmagaram 12,4mn t, 2% a mais do que em 2018. Em 2017, a moagem foi de 11,8mn t.

Esses números são da Associação Brasileira da Indústria do Trigo, a Abitrigo, que projeta ao menos estabilidade no volume de trigo esmagado neste ano no país, mesmo em meio aos efeitos da pandemia de Covid-19 sobre a economia global.

Flavia: Muito obrigada, José Roberto.

Se você quiser saber mais sobre o mercado global de commodities, acesse nosso site www.argusmedia.com. Para informações sobre os impactos da pandemia, visite nosso microsite dedicado ao assunto em www.argusmedia.com/coronavirus. Voltaremos em breve com mais uma edição do Falando de Mercado. Até logo!

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