Podcast | Falando de Mercado: Panorama das vendas antecipadas da safra brasileira de grãos

Author Argus

As safras brasileiras de soja e milho seguem quebrando recordes de produção e vendas antecipadas, impulsionadas pelo câmbio favorável aos agricultores. Como este desempenho se reflete ao longo da cadeia de valor do setor agrícola e qual é o impacto no mercado de fertilizantes?

No sexto episódio da série Falando de Mercado, Flavia Bohone, Editora de Agricultura e Fertilizantes da Argus, e José Roberto Gomes, repórter de grãos e fertilizantes, analisam o que está por trás do recorde de vendas antecipadas na safra brasileira de grãos.


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Transcrição

Flavia: Olá e bem-vindos ao ‘Falando de Mercado’ – uma série de podcasts trazidos semanalmente pela Argus sobre os principais acontecimentos com impacto para os setores de commodities e energia no Brasil e no mundo. Meu nome é Flavia Bohone, editora da publicação Argus Brasil Grãos e Fertilizantes. No episódio de hoje eu converso com José Roberto Gomes, repórter de grãos e fertilizantes, sobre o rápido avanço na comercialização antecipada das safras de soja e milho. Bem-vindo, José Roberto.

José: Obrigado, Flavia. É um prazer estar aqui.

Flavia: José, as vendas antecipadas para a safra 2020-21 de Mato Grosso estão em ritmo acelerado. O que está favorecendo esse movimento?

José: Flavia, realmente, as vendas antecipadas das safras de soja e de milho da temporada 2020-21 de Mato Grosso estão em níveis recordes. E o principal fator que impulsiona esse movimento é o câmbio que acaba por puxar os preços domésticos das commodities. Só neste ano a gente já viu uma alta de mais de 40% do dólar em relação ao real, enquanto os preços de soja subiram quase 30%c e os do milho cerca de 20% em Mato Grosso. Ou seja, a venda das commodities está mais atraente para os produtores. Vale lembrar que vários fatores influenciam o câmbio, mas este ano temos uma forte crise internacional, causada pela pandemia da Covid-19, que tem afetado bastante a moeda.

Flavia: Você mencionou que as vendas antecipadas estão em níveis recordes. Quais são os dados mais recentes?

José: No caso da soja, o dado mais recente do Imea, o Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária, mostra que os agricultures já negociaram pouco mais de 37% da produção estimada para a safra 2020-21, que vai ser plantada só a partir de setembro. No ano passado, a venda antecipada para a safra 2019-20 nesta mesma época era de pouco mais de 12%. E quando a gente compara com a média de cinco anos, a diferença é ainda mais gritante. No período, a média comercializada fica em torno de 7%.

Os patamares históricos também são vistos nas negociações do milho que será plantado a partir de janeiro, após a colheita da soja. Neste caso, os agricultores já negociaram quase 30% da produção esperada. No ano passado, assim como nos últimos cinco anos, simplesmente não havia venda antecipada nesse período.

Flavia: Estamos olhando para frente, falando sobre a próxima safra. Mas como está o ritmo de vendas da temporada atual?

José: Também acelerado. No caso da soja recém colhida, os agricultores de Mato Grosso já negociaram 89%, também acima da média de cinco anos para o período, que é de 75%. O milho da safra 2019-20, que começa a ser colhido no fim deste mês, já teve 82% da produção negociada. A média de cinco anos para esse período fica em torno de 61%.

Flavia: Com a negociação em ritmo acelerado, é de se esperar que a produção também seja elevada no próximo ano. Quais são as estimativas?

José: Sim, os números estimados mostram que o país como um todo deve ter uma produção recorde de soja na temporada 2020-21. A projeção mais recente do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos é de 131 milhões de toneladas. Ainda pelos cálculos do governo norte-americano, isso representaria cerca de 36% da produção mundial. A safra brasileira de milho da temporada 2020-21 também deve ser recorde e somar 106 milhões de toneladas.

Flavia: Falando sobre milho, este ano tivemos falta de chuva em algumas áreas do país. Como ficou a expectativa de produção para a segunda safra da temporada 2019-20 no país?

José: Flavia, realmente tivemos condições climáticas desfavoráveis em período importante de desenvolvimento da safra. Mas, apesar disso, a estimativa mais recente da Conab, a Companhia Nacional de Abastecimento, para produção da safrinha ainda é de um patamar recorde de quase 76 milhões de toneladas. Isso porque a área plantada cresceu bem, aumento de 7% em relação ao ciclo anterior, o que acaba compensando algumas perdas por causa do clima. Agora, é importante destacar que os níveis de chuva de maio serão fundamentais para confirmar ou não essa estimativa de produção, já que as plantações ainda estão em desenvolvimento em muitas regiões do país.

Flavia: Bom, sabemos que o dólar está favorecendo as vendas dos agricultores brasileiros. Mas como está a relação de troca?

José: Neste caso existe um fator importante que é a queda nos preços internacionais dos fertilizantes, além da alta do dólar, que favorece os preços de commodities para os produtores brasileiros. No caso do milho, por exemplo, a relação de troca em Sorriso e Rondonópolis, em Mato Grosso, mostra que com pouco mais de 44 sacas de milho é possível comprar 1 tonelada de NPK. Esse número é muito inferior ao que era visto um ano antes, quando a relação de troca era de 67 sacas de milho por tonelada de NPK.

Flavia: Você mencionou os preços em queda de fertilizantes. O que está causando essa queda?

José: Existem alguns fatores, mas podemos, neste momento, destacar que estamos fora da janela de aquisição para a safrinha e muitos produtores anteciparam suas compras, tendo um espaço para acomodar as compras ainda necessárias. Isso explica parte das quedas nos preços. Para se ter uma ideia, desde janeiro o preço da ureia granulada nos portos brasileiros acumula queda de quase 11%. Quando a gente compara com os preços reportados em meados de maio do ano passado, a queda é de quase 25%. Além disso, no ano passado vimos um excesso de oferta global, aumentando estoques, o que também favoreceu a queda nos preços. A indústria tomou medidas como cortes de produção no segundo semestre do ano passado para amenizar esses impactos. Na sequência vieram restrições para evitar a disseminação da Covid-19, que também levaram à diminuição da produção. Mas até agora os estoques e as compras antecipadas têm limitado a recuperação dos preços.

Flavia: Muito obrigada, José Roberto. Se você quiser saber mais sobre os impactos da pandemia no mercado global de commodities, acesse nosso microsite dedicado ao assunto em www.argusmedia.com/coronavirus. Voltaremos em breve com mais uma edição do “Falando de Mercado”. Até logo!

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