Falando de Mercado: A terceira safra de milho do Brasil

Author Argus

Enquanto outros países, como os Estados Unidos, possuem apenas uma safra de milho por ano, o Brasil possui três.

Junte-se a Camila Dias, chefe de redação da Argus no Brasil, e Alessandra Mello, editora assistente da publicação Argus Brasil Grãos e Fertilizantes publication. Elas falam sobre o potencial da região em que a terceira safra é produzida e a expectativa de produção nos próximos anos.

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Transcript

CD: Olá e bem-vindos ao Falando de Mercado — uma série de podcasts trazidos semanalmente pela Argus sobre os principais acontecimentos com impacto para os setores de commodities e energia no Brasil e no mundo. Meu nome é Camila Dias, chefe de redação da Argus Media no Brasil. No episódio de hoje eu converso com Alessandra Mello, editora assistente da publicação Argus Brasil Grãos e Fertilizantes, sobre algo que pode soar até curioso, a terceira safra de milho no Brasil. Alessandra, bem-vinda.

AM: Obrigada, Camila, muito bom estar aqui no Falando de Mercado.

CD: Alessandra, vamos começar falando sobre esta peculiaridade do Brasil, enquanto países como EUA tem apenas 1 safra de milho, por aqui nós temos 3. É isso mesmo? Explica pra gente.

AM: Pois é Camila, nós temos a primeira safra de milho, que é a mais tradicional, plantada principalmente na região sul do Brasil, que tem um clima até mais parecido com o norte-americano. Esta safra ocorre entre setembro e abril, mais ou menos. Depois tem a segunda safra, que antigamente era chamada de safrinha, mas que hoje é a principal, superou a primeira. Ela é plantada no centro-oeste do país e também no Paraná, após a colheita da soja. Portanto, ocorre entre janeiro e julho, geralmente. E por fim temos a terceira safra, que é o nosso assunto aqui hoje, plantada de acordo com o hemisfério norte, ou seja, de abril a setembro. A produção ainda é pouco significativa se comparada às demais regiões tradicionais de milho, mas a produtividade crescente e os preços altos da commodity vem reforçando as projeções de expansão das lavouras, especialmente no nordeste do Brasil.

CD: E onde se planta esta terceira safra de milho?

AM: Olha, principalmente na região que foi batizada de Sealba, que compreende Sergipe, Alagoas e o norte/nordeste da Bahia. Na estatística da Conab também está na conta da terceira safra algumas áreas de milho plantadas neste mesmo período nos estados de Roraima e Amapá, na região norte, lavouras que curiosamente ficam acima da linha do Equador, é o Brasil do hemisfério norte.

CD: E como tem sido o avanço da produção de milho por lá?

AM: Em 2021, a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) prevê que a terceira safra de milho alcance uma área de 581.000 hectares, um avanço de 8,5pc na comparação com 2020., esta é previsão da Conab que foi divulgada em julho. Os destaques são Sergipe e Bahia, onde a área vem crescendo mais.

Em Sergipe, pra se ter uma ideia, no intervalo de 15 anos, a produtividade média subiu de 1.300kg por hectare (safra 2004-05) para 5.969 kg/ha no ciclo 2020-21, nível muito próximo da média da safra principal em Mato Grosso, o gigante estado brasileiro da produção de grãos. Atualmente, Sergipe também possui a maior área cultivada da região, cerca de 220.000 hectares.

CD: Mas a região nordeste ainda tem muita desigualdade, a gente sabe. Isso se reflete neste cenário também?

AM: Sem dúvida se reflete, porque o tipo de tecnologia, o tipo de lavoura é muito desigual, por isso fica até complicado fechar estatísticas na região. O milho que tá crescendo é aquele chamado de alta tecnologia, áreas maiores, com uso de fertilizantes e agroquímicos adequados, e com alta produtividade. Por outro lado, ainda é muito grande o cultivo de milho para subsistência, sabemos que o nordeste é uma região que ainda tem muita pobreza, especialmente no sertão, e famílias costumam plantar milho por meio de programas do governo de doação de sementes. Nessas áreas, a produtividade é baixíssima, o que acaba maquiando um pouco a estatística geral da região. Eu conversei com um produtor rural que é referencia em Sergipe, o Gleiton Medeiros, ele disse que com certeza a produtividade da região é ainda maior do que mostram as estimativas da Conab. Técnicos da Conab me disseram que muito em breve a companhia deve passar a divulgar produtividades de forma estratificada, dividindo provavelmente entre baixa, média e alta tecnologia, desta forma vai ficar mais fácil entender como está sendo o desenvolvimento da agricultura nas diferentes regiões.

CD: E como é a demanda para este milho da terceira safra?

AM: A demanda é enorme, Camila. O nordeste consome muito mais milho do que produz. Esta produção local é utilizada não apenas para ração animal, mas também para o consumo humano – pratos à base de milho fazem parte da dieta tradicional dos nordestinos. Por este motivo, a cultura tem atraído novos investidores, como empresários de atividades urbanas que viram na produção de milho uma forma de obter alto retorno financeiro. Quem investiu 300.000 reais na lavoura de milho no ano passado, chegou a lucrar 1milhão de reais, afirmou o produtor Gleiton Medeiros.

Em paralelo, o setor agora se prepara para iniciar a exportação de milho, já que também possui condições favoráveis de logística – áreas produtoras estão a cerca de 200km do Terminal Marítimo Inácio Barbosa (TMIB), em Sergipe, conhecido como Porto da Barra dos Coqueiros. Produtores rurais de Sergipe vem sendo procurados por compradores de países como Irã e Coreia do Sul. A expectativa é fazer o primeiro embarque de milho produzido no Sealba em janeiro de 2022.

A primeira exportação de milho da história do porto de Sergipe foi confirmada em junho. A empresa de logística VLI anunciou o embarque de 60 mil toneladas do grão pelo terminal. A carga vem do oeste da Bahia, região que está mais consolidada na agricultura de alta tecnologia. Porém, participantes de mercado acreditam que a porta foi aberta e este movimento deve seguir estimulando o avanço do plantio na região do Sealba.

CD: Alessandra, este ano nós vimos muitos problemas com o clima nas regiões que plantam a segunda safra de milho. O que se pode esperar desta terceira safra levando em conta esta questão climática, também houve prejuízo?

AM: Infelizmente também houve prejuízo por lá. A primeira conversa que eu tive com os produtores de Sergipe foi no início de junho e eles estavam otimistas com o clima em 2021, apesar de registrarem alguns períodos de tempo seco. A previsão era de que as áreas de alta tecnologia de Sergipe alcançassem mais de 10.000kg por hectare, ante 9.000kg/ha na safra passada. Mas falei com eles novamente agora no final de julho e a situação é outra, realmente faltou chuva na maioria dos estados. E apesar de ter havido aquele crescimento de 8,5pc na área, possivelmente vão colher uma safra 22pc menor na comparação com o ano passado, algo em torno de 1,4 milhão de toneladas, ante 1,8 milhão de toneladas registrado em 2020.

CD: Pra gente finalizar, Alessandra, você acha que esta região da Sealba pode se transformar em mais outra grande potência do Brasil na produção de grãos?

AM: Olha, Camila, o potencial é enorme. Caso o cenário favorável de preços altos permaneça, a expectativa é de que o cultivo do milho avance principalmente em Alagoas, em áreas que antes eram destinadas à cana-de-açúcar, mas que perderam competitividade para os grandes grupos do setor que atuam no centro-sul do Brasil. A estimativa é de que o estado poderia subir dos atuais 40.000 para 600.000 hectares de milho.

Eu falei também com o gerente de acompanhamento de safra da Conab, Maurício Lopes, e ele acredita que esta expansão ainda deve demorar. Ele pondera que o clima da região ainda traz muitos riscos, já que o nordeste brasileiro, com clima semiárido, se caracteriza por ter alguns anos de seca severa. Mas eu também perguntei sobre esta questão para os produtores de Sergipe. E eles dizem que a cada 10 anos sabem que vão perder 3 safras por causa da seca, em outras duas o lucro empata com o custo, mas que o ganho nas demais 5 safras sempre vai acabar compensando, por isso estão muito satisfeitos com o investimento que fizeram no milho. E o próprio Mauricio da Conab lembrou que já vimos no passado um exemplo semelhante, que foi o chamado Matopiba, que compreende áreas do Maranhão, Tocantins, Piauí e oeste da Bahia. Até a década de 1980 muitos duvidavam do potencial agrícola da região e, com o avanço da tecnologia e sementes adaptadas, a produtividade das lavouras dobrou, fazendo com que a região hoje apareça entre as principais produtoras de soja, milho e algodão. Temos ouvido falar bastante no plantio de soja no nordeste também, principalmente no Ceará. Quem sabe? Vamos seguir acompanhando.

CD: Exatamente, vamos seguir acompanhando de perto! Muito obrigada, Alessandra.

Esse e os demais episódios do nosso podcast em português estão disponíveis no site da Argus em www.argusmedia.com/falando-de-mercado.

Visite a página para seguir acompanhando os acontecimentos que pautam os mercados globais de commodities e entender seus desobramentos no Brasil e na América Latina. Voltaremos em breve com mais uma edição do Falando de Mercado. Até logo!

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