Falando de Mercado: Safra recorde de milho eleva demanda por nitrogenados

Author Argus

A expectativa de produção recorde de milho na safra 2021-22 tem elevado a demanda por nitrogenados no Brasil. Junte-se a Camila Dias, chefe de redação da Argus no Brasil, e Renata Cardarelli, repórter da publicação Argus Brasil Grãos e Fertilizantes.

Elas falam sobre os fatores por trás do aumento dos preços de nitrogenados e o cenário global para a oferta do nutriente.

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Transcript

CD: Olá e bem-vindos ao ‘Falando de Mercado’ – uma série de podcasts trazidos pela Argus sobre os principais acontecimentos com impacto para os setores de commodities e energia no Brasil e no mundo. Meu nome é Camila Dias, Chefe de redação da Argus no Brasil. E no episódio de hoje eu converso com Renata Cardarelli, repórter da publicação Argus Brasil Grãos e Fertilizantes, sobre as compras de nitrogenados, que têm sido impulsionadas pela estimativa de produção recorde para a safra de milho 2021-22 do Brasil. Bem-vinda, Renata.

RC: Olá, Camila. É um prazer estar aqui.

CD: Renata, o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos espera uma produção de 118 milhões de toneladas para a safra de milho 2021-22 do Brasil. Como isso afeta a demanda por nitrogenados?

RC: Camila, a demanda brasileira total por nitrogenados em 2020 já foi 8pc maior do que em 2019. Em 2020, quase 5 milhões de nitrogenados foram entregues ao mercado e analistas acreditam que a demanda pode aumentar quase 15pc em 2021 em relação ao ano passado. Lembrando que, para a safra de milho 2021-22 atingir a produção recorde de 118 milhões de toneladas, será necessário um aumento de 5,5pc na área plantada, de acordo com analistas, o que naturalmente aumentará a demanda por nitrogenados.

CD: E os custos de produção, eles estão estáveis na comparação com a última safra?

RC: Não estão, Camila. Em Mato Grosso, o principal estado produtor de milho, os custos de produção de fertilizantes ficaram em cerca de 735 reais por hectare na safra 2020-21, um aumento de 7pc em relação ao ano anterior, de acordo com o Instituto Mato-Grossense de Economia Agropecuária, o Imea. A perspectiva para os custos de produção do milho com fertilizantes para a safra 2021-22 aumentou para mais de 920 reais por hectare em maio.

CD: A desvalorização do real em relação ao dólar impulsiona a alta dos preços dos fertilizantes no mercado brasileiro?

RC: Com certeza, Camila, o mercado de fertilizantes é altamente dolarizado, portanto, esse efeito é direto. No ano passado, o Brasil importou cerca de 80pc dos fertilizantes consumidos. Diante de uma produção nacional sem perspectiva de incremento a curto prazo e de aumento de área plantada, a tendência é de que a exposição à importação permaneça. As ofertas de venda de ureia já ultrapassam os $500/t cfr, ante uma ureia que custava cerca de $290/t no início deste ano. Os preços estão em alta e atingiram o maior nível desde 2013, mas a relação de troca permanece favorável aos produtores brasileiros.

CD: Renata, qual é o principal motivo para que a relação de troca esteja favorável aos produtores brasileiros?

RC: O principal motivo é o alto preço do milho na Bolsa de Chicago. A cotação do contrato futuro de milho com maior liquidez está cerca de 60pc mais alta do que há um ano. Os preços do milho na Bolsa de Chicago atingiram em junho o maior nível desde 2013, o que deve incentivar produtores brasileiros a aumentarem a área plantada na próxima safra. A situação é tão favorável para o produtor que já se fala, inclusive, até em transferências pontuais de áreas que seriam destinadas para o plantio de soja para a safra verão de milho tanto no Paraná quanto no Rio Grande do Sul. Como eu disse, são áreas pontuais, mas esse movimento historicamente não é comum.

CD: E as compras para atender à necessidade dos produtores... estão mais aceleradas do que no último ano?

RC: Em maio, estavam. Agora o ritmo diminuiu, porém as compras para a safra 2021-22 de milho devem ser concluídas em outubro-novembro, dois a três meses antes do que aconteceu na safra anterior, quando as negociações se estenderam até janeiro. Participantes do mercado relatam que as compras de nitrogenados pelos agricultores já atingiram pouco mais de 60pc da necessidade estimada para o plantio de milho 2021-22, abaixo dos 75pc negociados no mesmo período de 2020. Além da estimativa de aumento da área plantada, os compradores ficaram receosos com relação a novas altas de preços. Um ponto muito interessante é que, historicamente, agricultores brasileiros utilizam a troca de insumos para a produção agrícola futura como forma de financiamento das safras, porém, ainda que em situações pontuais, neste ano houve registro de negociações à vista, como consequência da capitalização dos produtores rurais.

CD: Há outros fatores que estejam impulsionando os preços de nitrogenados?

RC: Há uma série de fatores. A Índia tem lançado e deve seguir comprando ureia no terceiro trimestre para atender a demanda por nitrogenados. O país deve importar cerca de 6,2 milhões de toneladas no segundo semestre. Soma-se a isso a forte demanda por parte dos Estados Unidos, persistente na região do Delta do Mississipi. O clima seco na região do Delta atrasou a atividade agrícola, com aplicações prolongadas até o fim de junho.

CD: Nos Estados Unidos, os preços também têm subido, com a antecipação de um aperto da oferta doméstica. Isso também sustenta um sentimento de alta dos preços?

RC: Verdade, Camila, é isso mesmo. Uma oferta mais restrita neste trimestre também contribui para preços mais altos. Várias manutenções em unidades fabris estão programadas para acontecer nos Estados Unidos, o que deve restringir a oferta nos próximos meses.

CD: E na China, qual o cenário?

RC: A produção chinesa entre janeiro e maio também ficou 800.000t abaixo do mesmo período do ano passado. A oferta está restrita e compradores domésticos têm prioridade. O incremento da atividade industrial chinesa e um aumento da área plantada levaram a uma alta acima do esperado no consumo de ureia na primeira metade de 2021. A demanda indiana poderá não ser atendida pela produção chinesa, que está com oferta restrita, em função de regulações ambientais e da restrição de carvão. A escassez de carvão se deve, principalmente, às sanções impostas pela China à importação de produtos australianos. Além disso, regulamentações ambientais impediram que novas unidades de produção de ureia aumentassem a produção para a capacidade máxima.

CD: Muito obrigada, Renata.

Esse e os demais episódios do nosso podcast em português estão disponíveis no site da Argus em www.argusmedia.com/falando-de-mercado.

Visite a página para seguir acompanhando os acontecimentos que pautam os mercados globais de commodities e entender seus desobramentos no Brasil e na América Latina. Voltaremos em breve com mais uma edição do “Falando de Mercado”. Até logo!

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