Falando de Mercado: Déficit de armazenagem de grãos

Author Argus

O Brasil enfrenta historicamente um déficit de armazenagem de grãos, o que eleva bastante os custos ao longo da cadeia produtiva.

Junte-se a Camila Dias, chefe de redação da Argus no Brasil, e João Petrini, repórter da publicação Argus Brasil Grãos e Fertilizantes. Eles conversam sobre as perspectivas para esse segmento e as alternativas para reduzir o gargalo no armazenamento da produção de grãos no país.


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Transcript

CD: Olá e bem-vindos ao Falando de Mercado – uma série de podcasts trazidos semanalmente pela Argus sobre os principais acontecimentos com impacto para os setores de commodities e energia no Brasil e no mundo. Meu nome é Camila Dias, e eu sou chefe de redação da Argus no Brasil. No episódio de hoje eu converso com João Petrini, repórter da publicação Argus Brasil Grãos e Fertilizantes, sobre o déficit de armazenagem de grãos do Brasil, algo que eleva bastante os custos ao longo da cadeia produtiva.

Bem-vindo, João.

JP: Obrigado, Camila. É um prazer estar aqui.

CD: João, esse problema de déficit de armazenagem de grãos que o Brasil enfrenta é recente ou é algo que já acontece há muito tempo e acabou se tornando algo crônico?

JP: Então, Camila, é importante ressaltar que essa sempre foi uma dificuldade para produtores, empresas e tradings do país. Porém, ele vem se acentuando nos últimos anos, visto que a produção gigantesca do Brasil, que o torna um dos principais participantes do mercado agrícola mundial, não vem sendo acompanhada por aumento na capacidade de armazenagem.

Para se ter uma ideia, segundo levantamento da Companhia Nacional de Abastecimento, a Conab, nos últimos dez anos a produção de soja, milho, arroz e trigo - que respondem por noventa e seis por cento da produção total do Brasil - cresceu setenta e dois por cento nos últimos dez anos. No mesmo período, o crescimento do armazenamento foi de apenas trinta vírgula cinco por cento.

CD: E, atualmente, como é essa relação entre produção e armazenagem?

JP: Nesse ciclo de dois mil e vinte vinte e um, o Brasil estima uma produção de duzentos e setenta e um vírgula sete milhões de toneladas. Porém, o país tem capacidade de armazenamento de apenas cento e cinquenta e um vírgula oito milhões de toneladas, o que representa sessenta por cento da produção esperada.

Também é importante ressaltar que uma capacidade de armazenamento de cem por cento da produção não é viável economicamente e também não é necessária, já que as colheitas de soja e milho, que são os principais produtos agrícolas de exportação, ocorrem em épocas diferentes, permitindo a rotação nos armazéns.

CD: Mas João, se 100% de capacidade é inviável e 60% representa um déficit, qual a capacidade de armazenamento em relação à produção esperada que é considerada ideal?

JP: Boa pergunta, Camila. Acho correto dizermos que uma capacidade de armazenamento entre 80 e 85 por cento da produção esperada solucionaria o problema de déficit do país.

CD: Interessante, João. Para os próximos anos, a perspectiva é de alguma melhora ou piora nesse déficit?

JP: Infelizmente, de piora, Camila. A Conab realizou projeções até dois mil e vinte e seis, levando em conta o atual ritmo de crescimento da produção de grãos e da capacidade de armazenamento. Até lá, as estimativas indicam que para o Brasil apenas manter o nível atual de sessenta por cento de capacidade de armazenamento, seria necessário um aumento de vinte e cinco vírgula nove milhões de toneladas. Para aumentar a capacidade para setenta por cento da produção, seria necessário um aumento de cinquenta e seis milhões de toneladas nos próximos cinco anos.

CD: E nesse cenário, quais são os principais problemas causados pela capacidade insuficiente de armazenamento?

É muito comum ver nas fazendas grãos armazenados a céu aberto após a colheita por causa da falta de espaço, o que eleva bastante o risco de perdas. A Conab estima que quarenta e cinco vírgula cinco por cento das perdas de grãos após a colheita acontecem por causa de problemas de armazenamento.

Além disso, a falta de espaço também contribui para fretes de grãos mais caros. Também é bem comum ver o produtor vender a colheita o mais rápido possível, pois não tem capacidade de armazenar tudo o que é colhido. Para evitar essas possíveis perdas, a pressa para transportar grãos e oleaginosas se eleva. E com maior pressa, maior demanda pelo serviço de transporte e frete mais caro.

Uma maior capacidade de armazenamento permitiria um fluxo de produção menos acelerado, contribuindo para menos urgência e potencialmente menores taxas de frete de grãos. Produtores conseguiriam administrar melhor os fluxos de saída, aproveitando a oportunidade para vender pelos preços mais atraentes.

CD: Você mencionou anteriormente que elevar a capacidade de armazenamento seria caro demais. Explique um pouco melhor para a gente essa inviabilidade econômica.

JP: Exato, Camila. Uma das causas do grande déficit é o alto investimento necessário para construir essas estruturas, como armazéns e silos. De acordo com uma pesquisa com participantes do mercado ouvidos pela Argus, nos últimos dezessete anos, o governo federal disponibilizou vinte e quatro bilhões de reais para esse fim, por meio de programas de crédito e reforço de investimentos.

Porém, de todo esse valor, estima-se que apenas quinze vírgula cinco bilhões de reais foram efetivamente aplicados. A volatilidade das taxas de juros e da inflação no Brasil, e o fato de serem projetos de construção de longo prazo, também pesam contra os produtores que contraem dívidas para expandir os armazéns.

CD: E o governo federal tem uma posição sobre isso? Alguma solução já foi apresentada?

JP: Podemos dizer que o mercado está na expectativa disso. Inclusive, em abril, a ministra da Agricultura, Tereza Cristina, disse que o governo estuda mudanças para aumentar os investimentos em armazenamento no Plano Safra deste ano.

De acordo com a ministra, o atual programa de financiamento é caro devido ao longo prazo, já que os agricultores têm treze anos para pagar. Por isso, o governo estuda formas de reduzir esse prazo para oito ou dez anos. Espera-se que o Plano Safra seja anunciado agora em junho.

CD: Certo, João. E diante desse déficit de armazenagem que já vem de alguns anos, existe alguma solução, vamos dizer, paliativa, para amenizar o problema?

JP: Existe sim, Camila. A principal delas é o chamado silo bolsa. São estruturas temporárias que auxiliam no armazenamento de grãos e oleaginosas. Normalmente eles são tubos plásticos horizontais, que variam de um metro e oitenta a três metros e sessenta de diâmetro e podem ter trinta, sessenta ou noventa metros de comprimento. Segundo participantes do mercado com quem conversei, os silos bolsas apresentam baixos custos de manutenção e operação e proporcionam maior flexibilidade logística.

Em dois mil e dezenove, estima-se que vinte milhões de toneladas de grãos foram armazenadas em silos bolsas. A projeção para dois mil e vinte e cinco é que o Brasil seja capaz de armazenar até sessenta milhões de toneladas em silos desse tipo, dadas as dificuldades de expansão do armazenamento tradicional.

CD: Muito obrigada, João. Esse e os demais episódios do nosso podcast em português estão disponíveis no site da Argus em www.argusmedia.com/falando-de-mercado. Visite a página para seguir acompanhando os acontecimentos que pautam os mercados globais de commodities e entender seus desobramentos no Brasil e na América Latina. Voltaremos em breve com mais uma edição do Falando de Mercado. Até logo!

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