Falando de Mercado: Relações de troca de fertilizantes no Brasil

Author Argus

Junte-se a Camila Dias, chefe de redação da Argus no Brasil, e Kauanna Navarro, repórter da publicação Argus Brasil Grãos e Fertilizantes, e acompanhe a discussão sobre como as relações de troca de fertilizantes estão favorecendo os agricultores brasileiros e impulsionando o comércio durante o primeiro trimestre.

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Transcript

Camila Dias: Olá e bem-vindos ao ‘Falando de Mercado’ – uma série de podcasts trazidos pela Argus sobre os principais acontecimentos com impacto para os setores de commodities e energia no Brasil e no mundo. Meu nome é Camila Dias, chefe de redação da Argus no Brasil. No episódio de hoje, converso com a repórter de agricultura e fertilizantes, Kauanna Navarro, sobre como as relações de troca de fertilizantes estão favorecendo os agricultores brasileiros e impulsionando o comércio durante o primeiro trimestre. Bem-vinda, Kauanna.

Kauanna Navarro: Obrigada, Camila. É um prazer estar aqui.

CD: Acho que podemos começar dizendo o que é a relação troca e por que ela é tão importante no Brasil. KN: Claro. Acho que é a melhor maneira de começar. A relação de troca é a relação entre o preço de uma saca da produção agrícola e uma tonelada de insumos - sementes, pesticidas, fertilizantes – usados para o cultivo da safra. Mas aqui, estamos falando de fertilizantes considerados commodities, como nitrogênio, fosfatados e potássio. Relações de troca mais baixas são favoráveis para os agricultores e, no Brasil, a troca de insumos para produção futura é o meio mais comum de financiamento das safras.

CD: E as relações de troca atuais estão favorecendo os agricultores brasileiros agora?

KN: Sim, as relações atuais estão positivas para os agricultores. Para o milho, por exemplo, as relações de troca estão quase 25 sacas/t abaixo da média histórica da Argus de 62 saca/t para Sorriso/Rondonópolis desde seu início, em dezembro de 2014.

CD: Kauanna, você falou sobre a relação de troca média para dois municípios de Mato Grosso. Mas recentemente o relatório Argus Brasil Grãos e Fertilizantes dividiu alguns locais de relações de troca para mostrar mais claramente as tendências dessas relações no maior estado produtor de grãos e oleaginosas do Brasil. Você pode nos contar mais sobre essa mudança?

KN: Claro. Costumo dizer que existem muitos Brasis dentro do Brasil. Acho que quanto mais locais tivermos, melhor entenderemos os diferentes Brasis. Costumávamos ter uma relação de troca para milho e para soja considerando o preço médio dos grãos em Sorriso e Rondonópolis. Agora que os separamos é possível observar, por exemplo, que para a soja a relação de troca é quase uma saca por tonelada maior em Sorriso do que em Rondonópolis. A diferença entre essas duas cidades mato-grossenses é resultado de preços diferentes dos grãos em cada região, então achamos que é bom agora podermos ver essas diferenças.

CD: Obrigada, é muito importante ver essas diferenças. Voltando às condições atuais favoráveis para as relações de troca, estou curiosa para entender por que está tão favorável para o milho enquanto os preços dos fertilizantes, especialmente ureia e fosfatados, estão em um momento de alta. Isso deveria significar mais sacas para comprar a mesma quantidade de fertilizante, não o contrário. Por que as relações estão tão baixas?

KN: Você está certa, mas os preços dos grãos estão ultrapassando os aumentos dos fertilizantes. A ureia no início de fevereiro atingiu o nível médio mais alto desde fevereiro de 2014. No entanto, o preço médio do milho na bolsa de Chicago em fevereiro foi o mais alto desde julho de 2013.

CD: E quais são os fatores para esse nível alto de preços do milho?

KN: Camila, sempre digo que todos os mercados são sobre oferta e demanda. Não importa se estamos falando de ureia, carvão ou ações. E, neste momento, a demanda está aumentando, enquanto a oferta não está aumentando no mesmo ritmo.

A perspectiva de queda na produção de milho dos EUA, de acordo com dados oficiais do Departamento de Agricultura americano, em meio à maior demanda por exportações de milho dos EUA, está elevando os preços.

Além disso, as importações de milho na China permaneceram fortes em 2020, impulsionadas pela forte alta nos preços domésticos do milho, com os embarques para os portos chineses a caminho de atingir um recorde. Por enquanto, a China ocupa a 40ª posição entre os principais compradores de milho do Brasil, liderado por Japão, Irã, Vietnã, Egito e Espanha, de acordo com o Ministério da Agricultura do Brasil.

CD: E quando se trata da China, nós temos uma certeza: um volume enorme estará envolvido.

KN: Não tenho dúvidas disso. A China comprou e continua comprando mais milho brasileiro à medida que aumenta a demanda no mercado internacional, aumentando a expectativa de um novo protocolo de comércio com seu parceiro sul-americano. Isso daria ainda mais suporte aos preços do milho.

CD: De volta à questão das relações de troca. Você mencionou o cenário de troca para o milho, mas como está para a soja? Os agricultores têm os mesmos motivos para comemorar?

KN: As relações de troca da soja não estão tão favoráveis para os produtores brasileiros quanto as relações de troca do milho, mas ainda assim merecem ser mencionadas. A relação de troca de soja para Sorriso e Rondonópolis está 15pc abaixo do mesmo período do ano anterior. Mas quando a gente olha a média histórica, em Rondonópolis, a relação está apenas 4 sacas/t abaixo da média.

CD: E por que não está tão favorável?

KN: O preço médio do MAP, o principal fertilizante para soja, está no seu nível mais alto desde agosto de 2012. E mesmo com participantes de mercado relatando alguma desaceleração no mercado nas últimas semanas, os preços do MAP continuam aumentando, impulsionados pela demanda de importação brasileira e uma visão geral de falta de MAP no mercado.

CD: Por que falta o MAP disponível? Houve algum problema de abastecimento?

KN: Não, globalmente não tivemos nenhum problema significativo de abastecimento. A alta dos preços dos fosfatados está diretamente relacionada ao mercado norte-americano. A disponibilidade é limitada como consequência de tarifas preliminares cobradas pelos EUA sobre as importações de fosfatados da marroquina OCP e das russas EuroChem e Phosagro. Em termos simples, as taxas elevaram a procura por fosfatados por parte de importadores dos EUA no mercado global e a demanda reduziu o volume de MAP e TSP disponíveis.

Normalmente, dezembro e janeiro são meses de baixa liquidez no mercado brasileiro, mas como os preços cfr subiram, os produtores de soja brasileiros têm antecipado a compra de MAP para a safra de soja 2021-22.

CD: Na sua opinião, esse cenário vai persistir?

KN: É difícil dizer. Mas, como eu disse antes, o mercado é sempre sobre oferta e demanda. O que estamos vendo agora é um aumento na demanda global de soja. Os participantes do mercado acreditam que os preços do fosfatado podem ficar ainda mais altos nos EUA, à medida que os compradores suprem suas necessidades restantes para a primavera. A produtora norte-americana Mosaic está preenchendo a lacuna deixada no mercado local, já que as tarifas de importação preliminares basicamente impediram os produtores marroquinos e russos de embarcarem para lá a partir de julho. Os preços dos fosfatados podem continuar subindo, já que os mercados globais de DAP e MAP estão com falta de oferta, e os valores de DAP devem continuar a aumentar até maio.

CD: Então, é melhor que os agricultores aproveitem o nível atual das relações de troca...

KN: Na minha opinião, é um bom momento para pensar sobre as necessidades restantes para a próxima safra de soja.

CD: Kauanna, além do milho e da soja, o relatório Argus Brasil Grãos e Fertilizantes também publica relações de troca de algodão. Isso também foi atualizado recentemente. Você pode me falar mais sobre essas mudanças?

KN: Sim. Adicionamos duas novas localidades para algodão também. Uma em Mato Grosso, uma média para os municípios de Campo Novo do Parecis e Sapezal. Essa é a mais importante região algodoeira do Brasil. Também adicionamos uma localidade de cálculo da relação de troca no estado da Bahia, em Luis Eduardo Magalhães, que também é uma importante área produtora no Brasil.

CD: Já que estamos falando sobre isso, como estão relações de troca do algodão?

KN: Os produtores de algodão também têm motivos para comemorar, ou, pelo menos, antecipar as compras para a próxima safra. A relação de troca do algodão em Campo Novo do Parecis/Sapezal é de 16 sacas de 15kg de algodão em pluma para uma tonelada de fertilizante usado no plantio do algodão. O nível está em linha com a média, mas quase 30pc inferior ao mesmo período do ano passado. No nordeste da Bahia, a relação de troca é quase 3 sacas menor do que em Mato Grosso por causa dos preços spot mais altos na região.

CD: Muito obrigada, Kauanna.

Esse e os demais episódios do nosso podcast em português estão disponíveis no site da Argus em www.argusmedia.com/falando-de-mercado. Visite a página para seguir acompanhando os acontecimentos que pautam os mercados globais de commodities e entender seus desobramentos no Brasil e na América Latina. Voltaremos em breve com mais uma edição do “Falando de Mercado”. Até logo!

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