Falando de Mercado: Principais indicadores de preços de gás no mundo

Author Argus

A Petrobras passará a permitir que contratos de gás firmados com a petroleira sejam precificados com o indicador norte-americano Henry Hub.

Junte-se a Camila Dias, chefe de redação da Argus no Brasil, e Flavia Pierry, editora de Gás Natural e Energia no Brasil. Elas falam sobre os principais indicadores de preço de gás no Brasil e no mundo e discutem as mudanças esperadas para esse mercado no Brasil com a sanção da nova Lei do Gás em abril.


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Transcript

Camila: Olá, e bem-vindos ao Falando de Mercado, uma série de podcasts trazidos semanalmente pela Argus sobre os principais acontecimentos com impacto para os setores de commodities e energia no Brasil e no mundo.

Meu nome é Camila Dias, eu sou chefe de redação da Argus no Brasil, e no episódio de hoje eu converso com Flávia Pierry, editora de Gas Natural e Energia, sobre as recentes mudanças no mercado de gás natural no Brasil. Bem-vinda, Flavia.

Flávia: Obrigada, Camila.

Camila: O mercado de gas natural no Brasil está passando por um momento de virada, com a sanção da nova Lei do Gas em abril. O que muda, efetivamente, na atividade do setor com a nova lei?

Flavia: O momento que estamos presenciando agora foi planejado e aguardado por quase dez anos. No dia 8 de abril foi sancionada a Nova Lei do Gás, debatida por quase cinco anos no Congresso Nacional. A nova legislação traz uma mudança importante, que é alterar a entrada de novos investidores no segmento de transporte e processamento de gás natural, além de abrir o mercado livre para os consumidores desse combustível. De forma muito básica, o que a nova lei fez é definir que a expansão das atividades de transporte e processamento de gás natural pode ser conduzida por qualquer agente econômico, bastando que seja autorizado pela a Agência Nacional do Petróleo, Gas Natural e Biocombustíveis, a ANP. Com isso, muda-se completamente o drive de expansão do setor, que fica independente do ritmo de trabalho do governo Federal.

Camila: Flávia, você pode explicar como era antes e como ficou?

Flávia: Mesmo antes da aprovação da nova lei, atos de órgãos federais, como a Resolução 16 do Conselho Nacional de Política Energética, e resoluções da ANP já preparavam o caminho para a abertura do mercado, desembaraçando as regras para comercialização e carregamento do gás natural e definindo diretrizes para um mercado concorrencial do gás.

Porém, o Marco Legal ANTERIOR do Gás Natural, que era de 2009, estipulava o modelo de CONCESSÃO para as atividades de gás natural, cabendo ao governo federal capitanear todo o processo: pesquisar oferta e demanda para as décadas futuras, fazer o planejamento da expansão dos gasodutos e unidades de processamento, criar as licitações – que poderiam inclusive incluir o pagamento de valores como “bônus” pelas empresas interessadas à União. O vencedor da licitação ganhava o direito de exploração dessa estrutura, por um prazo de 30 anos, prorrogáveis por mais 30. Depois desse período, os bens eram da União e poderiam ser relicitados.

A nova lei muda tudo isso: o empreendedor do setor do gás avalia se quer construir um gasotudo ou unidade de processamento, e pede autorização à ANP, que faz uma consulta pública. Se não tiver óbice, ele segue com o investimento.

Outras mudanças que estão em curso nos estados abrem o mercado livre do gás, com as empresas consumidoras podendo se conectar diretamente à rede de transporte de gás. Elas poderão comprar gás de qualquer fornecedor, do Brazil e até de outros países, caso seja gás natural liquefeito, possibilitando a criação de um mercado cada vez mais dinâmico, líquido, com efervecência de compradores e vendedores, e toda uma industria de serviços.

Camila: No início de maio, a Petrobras, que é atualmente a maior produtora e vendedora de Gas Natural no Brasil, anunciou que passará a permitir que seus clientes decidam se os contratos de compra de gás assinados com a petroleira serão indexados ao Brent, uma referência de preço do barril de petróleo no mercado internacional, ou ao Henry Hub, que informa os preços de compra e venda de gas natural nos Estados Unidos. Flávia, quais são os principais indicadores internacionais usados na indexação de gas natural e GNL no mundo?

Flávia: Quem trabalha com Gás Natural está acostumado a ouvir sobre os indicadores de preços TTF e NBP, na Europa; Henry Hub nos Estados Unidos; e o JKM ou ANEA no mercado asiático. Esses indicadores informam o preço do gas comercializado em determinadas regiões e refletem o volume e o custo de produção do gas natural nesses locais.

Camila: Então vamos explicar melhor sobre esses indicadores, Flávia. Vamos começar pelo Henry Hub?

Flavia: O Henry Hub é um ponto de negociação física de gás natural nos Estados Unidos, perto da cidade de Erath, no estado da Louisiana, na Costa do Golfo dos Estados Unidos e perto do estado do Texas, onde há uma grande produção de petroleo e gás. Nessa localidade se interconectam diversos gasodutos e unidades de processamento e estocagem de gas natural, operados por um agente privado. O local reúne muitas transações, em um mercado aberto e dinâmico. Este também é o local da entrega física de gás dos contratos futuros dessa commodity da NYMEX. Por esses motivos, o preço das transações do gás nesse ponto se tornou tão importante e uma referência para os preços do gás no mundo. Um comprador de gás no Brasil pode se basear no preço do Henry Hub ao criar seus contratos, definindo um prêmio sobre esse indicador, por exemplo. Mas a decisão de qual indicador irá indexar um contrato passa por muitas variáveis, e mesmo dentro dos Estados Unidos existem diversas opções de indicadores, que a Argus acompanha e divulga diariamente.

Camila: E em outros países?

Flavia: Na Europa, temos o TTF, sigla para “Title Transfer Facility”, um ponto ou “hub” virtual de negociação de gás na Holanda; e também temos o NBP, ou National Balancing Point, que reúne os preços de negociações de compra e venda de gás em qualquer ponto do sistema interligado de transporte de gás no Reino Unido e é o preço à vista do gás naquele mercado. Esse é o mercado de comercialização de gás natural mais antigo da Europa, em operação desde 1990. No NBP, a liquidez das transações vem se reduzindo, com a maturidade dos campos de exploração de óleo e gás no Mar do Norte.

Aqui também vale o que falamos sobre o Henry Hub: cada negociante pode e deve acompanhar diversos indicadores para tomar sua decisão de negócio, e há outros indicadores importantes na Europa, como o GASPOOL na Alemanha, PEG na França, PSV na Itália, PVB na Espanha e o VTP na Áustria.

Temos ainda indicadores para as negociações de Gas Natural liquefeito, o GNL, que representa o preço da molécula transportada através de navios para os principais cantos do mundo.

Os principais indicadores dessas transações na Ásia são o JKM, ou “Japan Korea Markets”e o Argus North East Asia (ou ANEA), que representam as negociações de GNL em países como o Japãp, Coreia, China e Taiwan.

Camila: Por que a indexação dos contratos de gás está mudando da tradicional cesta de petróleo e óleo combustível para uma indexação baseada em indicadores de gás?

Flávia: Camila, esse movimento já vem ocorrendo há décadas em alguns países com mercado de gas mais dinâmico e aberto, e agora começa a acontecer aqui no Brasil, como reflexo da abertura do mercado de gás natural. Veja, para se calcular um índice de preços, é importante ter transações de compra e venda em bastante volume e quantidade de negócios. E isso só é possível em mercados em amadurecimento. Como o mercado do petróleo se desenvolveu primeiro em todo o mundo, os indicadores de preços de petróleo, como o Brent e o WTI vieram primeiro, e acabaram servindo para que negociantes de gás natural balizassem seus preços. No Brasil, a produção de gás natural está intimamente ligada com a de petróleo, já que 80 porcento do gas é produzido junto com o petróleo.

Mas com o surgimento de um mercado cada vez mais dinâmico de gás, é normal que os seus participantes busquem formas mais diretas de precificar seus produtos. E é aí que surgem os índices de preços de gás indexando contratos desse tipo. Isso é fruto de aumento da liquidez deste mercado, maior investimento em infraestrutura e consequente surgimento de novas rotas de comercialização.

É o caso do anúncio da Petrobras, a maior produtora de gás no Brasil, que passará a permitir que seus contratos de fornecimento de gas sejam indexados a Henry Hub.

Para quem compra esse gás, o benefício é poder utilizar um indicador que representa a dinâmica entre oferta e demanda de um mercado que está muito mais relacionado ao mercado brasileiro de gás. Ao indexar gás com indicadores de petróleo ou óleo combustível, o comprador/vendedor traz para seu contrato todo tipo de risco de um mercado que não está diretamente associado ao gás brasileiro, como exposição a conflitos internacionais e questões cambiais.

Camila: E qual indicador a America Latina esta acompanhando mais de perto?

Flávia: Até pela nossa proximidade, Camila, estamos acompanhando mais de perto o Henry Hub. Isso é favorável para quem vai fazer uma negociação de gás aqui no Brasil, já que o Henry Hub tem mostrado uma variação menor do que os preços do Brent. Excluindo um pico do preço que ocorreu durante três dias em fevereiro de 2021 – quando o estado do Texas, pertinho do Henry Hub físico, teve uma onda extrema e inesperada de frio - , o preço do Henry Hub costuma variar menos que o Brent, que reage até mesmo a decisões de política exterior de países produtores do petróleo.

Camila: Flavia, só pra gente finalizar, queria que vc falasse um pouco sobre os próximos passos para a abertura do mercado de gás no Brasil.

Flavia: Vamos lá. Após a sanção presidencial em abril, é preciso a edição de um decreto, que dê contorno a instrumentos da lei. Além disso, agora a ANP precisa trabalhar na regulamentação de cada um dos aspectos da Lei, como as caracterizações de cada tipo de agente, suas responsabilidades e direitos. São aguardados ainda a criação de códigos de acesso à rede de transporte. A ANP já se preparou para isso e na sua Agenda Regulatória 2021-2023 já estão previstas as principais atualizações de resoluções e normativos. As que são mais aguardadas pelo mercado do gás – as atualizações das regras de comercialização e transporte de gás natural – devem ocorrer ainda este ano, 2021, segundo a ANP. A Argus está acompanhando de perto essas novidades e trazendo essas informações para nossos leitores e assinantes.

Camila: Muito obrigada, Flavia. Vamos seguir acompanhando de perto cada passo em direção a esse mercado aberto e cada vez mais líquido.

Esse e os demais episódios do nosso podcast em português estão disponíveis no site da Argus em www.argusmedia.com/falando-de-mercado. Visite a página para seguir acompanhando os acontecimentos que pautam os mercados globais de commodities e entender seus desobramentos no Brasil e na América Latina. Voltaremos em breve com mais uma edição do “Falando de Mercado”. Até logo!

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