Falando de Mercado: Geadas e seca impulsionam preços de café

Author Argus

Depois das geadas no fim de julho, preocupação é com a seca que atinge as regiões produtoras de café e pode atrapalhar a floração das lavouras em setembro.

Condições climáticas desfavoráveis contribuem para a alta das sacas do grão. Junte-se a Camila Dias, chefe de redação da Argus no Brasil, e Renata Cardarelli, repórter da publicação Argus Brasil Grãos e Fertilizantes. Elas conversam sobre recente alta nos preços de café no Brasil e seus impactos nas relações de troca.

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Transcript

CD: Olá e bem-vindos ao ‘Falando de Mercado’ – uma série de podcasts trazidos semanalmente pela Argus sobre os principais acontecimentos com impacto para os setores de commodities e energia no Brasil e no mundo. Meu nome é Camila Dias, chefe de redação da Argus no Brasil. No episódio de hoje eu converso com Renata Cardarelli, repórter da publicação Argus Brasil Grãos e Fertilizantes, sobre a recente alta nos preços de café no Brasil causada por geadas nas principais áreas produtoras e seus impactos nas relações de troca. Bem-vinda, Renata.

RC: Olá, Camila. É um prazer estar aqui.

CD: Primeiramente, Renata, gostaria que você compartilhasse conosco qual é a situação do clima no Brasil, pensando justamente na safra de café.

RC: Claro, Camila, isso é muito importante para que todos entendam o quadro geral. Eu e a Kauanna Navarro, que também é repórter na publicação Argus Brasil Grãos e Fertilizantes, escrevemos recentemente uma análise sobre os preços do café e o ponto de partida dessa análise é justamente o clima. Essas geadas recentes vêm acompanhadas de um período anterior de seca, que desacelerou o crescimento das plantações em 2020, atrapalhando a floração que costuma ocorrer de setembro a outubro. As geadas atingiram áreas produtoras de café em três ocasiões no fim de julho. A preocupação agora é com relação à seca que atinge as regiões produtoras e os agricultores esperam que esse tempo seco vá embora logo, já que as chuvas são importantes para a floração a partir de setembro.

CD: Então, quer dizer que os impactos das geadas não estão claros até agora?

RC: Exatamente, Camila. O café é colhido no meio do ano, durante o inverno brasileiro, então cerca de 80pc da safra atual de café já foi colhida e as geadas podem ter um impacto mais significativo na próxima safra ou mesmo na safra 2023. A Conab, Companhia Nacional de Abastecimento, estima que as geadas afetaram uma área de até 200 mil hectares de café arábica, com danos leves, moderados ou graves. Isso representa cerca de 10pc da área cultivada com café arábica.

CD: O ciclo de produção do café é bienal, Renata. Você poderia explicar o que é esse padrão?

RC: Isso significa que uma temporada de produtividade mais baixa é seguida por outra mais forte, devido à recomposição vegetal. Sazonalmente esta safra naturalmente seria menor que a anterior. A safra de café 2020-21 do Brasil é de bienalidade negativa e deve chegar a 48,8 milhões de sacas, de acordo com a Conab, uma queda de 22,6pc em relação à safra 2019-20, uma temporada de bienalidade positiva.

Por isso, o real impacto sobre as lavouras de café só se tornará evidente com o tempo, de acordo com analistas, já que as geadas podem afetar superficialmente a floração de uma árvore ou até mesmo gerar a perda total de uma safra, principalmente das mudas. Os cafeeiros costumam levar cerca de três anos para se desenvolver. Mas uma coisa é certa, Camila, as geadas agravam as perspectivas para a oferta de café no próximo ano. Alguns participantes de mercado dizem que as perdas podem variar de 2 a 10 milhões de sacas de café arábica.

CD: Quais foram os efeitos das geadas nos preços do café brasileiro?

RC: O preço da saca de café nas cidades de Uberaba e Uberlândia ultrapassou R$1 mil na última semana de julho, o maior desde dezembro de 2014, em função da perspectiva de estragos causados pelas geadas. O resultado no campo foi menos dramático do que o esperado e os preços do café começaram a cair novamente em Minas Gerais para R$923,29 em 12 de agosto, mas o nível ainda está 12pc mais alto do que antes dos alertas de geada. Só que, mais uma vez, Camila, os preços ultrapassaram R$1.000 no fim de agosto, impulsionados por preocupações com os impactos da seca.

CD: Os aumentos de preços têm um impacto direto nas relações de troca. Qual foi a tendência das relações de troca, Renata?

RC: Logo após as geadas, as relações de troca caíram para o nível mais baixo desde junho. Os preços mais altos da saca impulsionaram a queda da relação de troca nas cidades de Uberaba e Uberlândia na semana passada para 3,47 sacas/t, saindo de 4,17 sacas/t em 22 de julho. Esse movimento pode ser apenas temporário, mas certamente faz com que este momento seja propício para a compra de fertilizantes para a próxima safra. Ainda assim, no acumulado do ano, as relações de troca de café subiram 0,48 saca/t, já que as cestas de NPK quase dobraram de preço, superando o aumento dos preços de café.

Os preços das cestas NPK 20-05-20 e 25-00-25 subiram, acompanhando os preços mais altos de ureia granulada, sulfato de amônio e cloreto de potássio. As novas compras de insumos agora estão voltadas para a safra de café de 2022-23, mas os próximos dias podem ser cruciais para os agricultores brasileiros, pois o impacto da geada ficará mais claro e ditará se os produtores aumentarão ou reduzirão os investimentos para a próxima safra.

CD: No mercado internacional, os preços também subiram, Renata?

RC: Isso, Camila, você tem razão. Uma possível pressão sobre a oferta e um aumento esperado na demanda global por café, à medida que a economia global se recupera das restrições mais duras associadas à pandemia de Covid-19, levaram os preços dos futuros na bolsa americana ICE a subirem 32pc em julho, no mês em que as geadas foram registradas. O contrato de café arábica para dezembro estava em $1,99/lb em 29 de julho, mas depois recuou para em $1,87/lb em meados de setembro.

CD: Qual é o panorama internacional?

RC: O Brasil é o maior produtor mundial de café, respondendo por cerca de 37pc da produção global. O segundo da lista é o Vietnã, que responde por cerca de 17pc da produção global de café, mas nesta temporada o país asiático deve ter sua produção reduzida de 5pc a 10pc em relação à temporada anterior. Além disso, o Vietnã está enfrentando uma onda de covid-19 provocada pela variante Delta e restrições permanecem em vigor no país.

Outro ponto de atenção é a cadeia logística global do café, que foi afetada por distúrbios políticos na Colômbia no início deste ano. As exportações cresceram 9pc em julho em relação ao mesmo período do ano passado e parecem que agora estão normalizadas. A Colômbia é outro produtor importante de café, com uma participação de mercado de cerca de 8,5pc da produção global.

CD: Muito obrigada, Renata Cardarelli.

Esse e os demais episódios do nosso podcast em português estão disponíveis no site da Argus em www.argusmedia.com/falando-de-mercado.

Visite a página para seguir acompanhando os acontecimentos que pautam os mercados globais de commodities e entender seus desobramentos no Brasil e na América Latina. Voltaremos em breve com mais uma edição do “Falando de Mercado”. Até logo!

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