Falando de Mercado: Os preços de gás natural no Brasil em um mercado aberto

Author Argus

Com a abertura do mercado do gás natural no Brasil, devem surgir novos contratos de fornecimento de gás, saindo de um modelo de precificação com fórmulas baseadas em petróleo para contratos com preços em gás.

Junte-se a Camila Dias, chefe de redação da Argus no Brasil, e Flávia Pierry, editora de Gás Natural e Energia. Elas conversam sobre as mudanças esperadas na formação de preços e o papel da Argus nesse novo mercado.

Conheça mais sobre os serviços da Argus para o Mercado de Gas Natural.



Transcript

[Camila] Olá, e bem-vindos ao Falando de Mercado, uma série de podcasts trazidos semanalmente pela Argus sobre os principais acontecimentos com impacto nos setores de commodities e energia no Brasil e no mundo.

Meu nome é Camila Dias, eu sou chefe de redação da Argus no Brasil, e no episódio de hoje eu converso com Flávia Pierry, editora de Gas Natural e Energia, sobre os preços de gás natural no Brasil: como eles eram definidos até recentemente e o que está mudando nesse setor após a nova lei do gás.

Bem-vinda, Flavia.

[Flávia] Obrigada, Camila.

[Camila] Flávia, A Argus é uma empresa que tem entre suas especialidades a produção de indicadores de preços das principais commodities, incluindo o gás natural, no mundo todo. No Brasil, a formação do preço do gás natural deve passar por uma grande transformação por conta da abertura deste mercado. Explica pra gente como o preço do gás brasileiro tem sido determinado até agora.

[Flávia] Hoje a Petrobras ainda é a principal vendedora de gás natural no Brasil. Como 85 porcento da produção de gás natural no Brasil é atrelada à produção de petróleo, a Petrobras indexava seus contratos de fornecimento de gás ao preço internacional do petróleo, usando o indicador “Brent”, que é a principal referência do valor do barril no mercado internacional.

[Camila] A indexação de um produto com base no outro pode trazer certos riscos, não?

[Flávia] Sim. Esse tipo de indexação pode funcionar em situações como a da Petrobras, que produz um volume grande de gás associado à sua produção de petróleo. Mas para empresas que operam exclusivamente no mercado de gás e que não têm nenhuma exposição ao mercado de petróleo, o risco é bem mais alto. O preço do petróleo pode variar em sentido diferente ao do gás natural. O gás tem características de escoamento e transporte que torna seu preço mais sensível a questões locais. Os mercados locais de gás natural são fortemente incluenciados, por exemplo, pelo clima, já que o gás é utilizado para aquecimento predial em períodos frios e é utilizado para complementar a geração elétrica em momentos de calor – quando há necessidade de refrigerar casas e escritórios. O gás também pode ter maior consumo em períodos de seca – quando a geração hidrelétrica fica restrita e é preciso ligar mais usinas térmicas.

Já o petróleo se caracteriza por ser uma commodity global, cujo preço varia refletindo decisões da indústria petroleira, da política dos países produtores, da atividade econômica mundial, da possibilidade de nova onda de lockdowns devido a novas cepas do coronavírus... Ou seja, é muito importante buscar índices que representem a real dinâmica entre a oferta e a demanda do mercado em questão.

[Camila] Fica fácil de entender por que produtores e compradores de gás desejam um preço de gás, e não de petróleo, para indexar seus contratos. É por isso que a Petrobras anunciou em maio que passará a oferecer contratos indexados também ao preço de gás para novos contratos...

[Flávia] Exato, Camila. Porém, por falta de um indicador do preço no Brasil, a Petrobras anunciou que usará o índice Henry Hub, apurado em Louisiana, nos Estados Unidos. O Henry Hub é o principal ponto de venda de gás nos Estados Unidos, onde é o ponto de entrega do gás negociado em contratos futuros no mercado financeiro norte-americano, onde 111 bilhões de btus são comercializados a cada mês.

Temos aí um avanço: os contratos brasileiros que forem indexados a esse indicador terão uma variação gás-gás. Porém, ainda estamos longe de algo ideal e que forneça segurança às duas partes de um contrato firmado aqui no Brasil. O índice Henry Hub representa a dinâmica entre oferta e demanda nos Estados Unidos... Por exemplo: uma restrição no fluxo do gás por lá, por parada de um gasoduto, pode alterar os preços. Quem estiver com contrato aqui no Brasil atrelado a esse indicador verá uma alteração em seu preço sem qualquer fundamento aqui no Brasil, onde o gás pode estar passando por uma dinâmica totalmente diferente.

[Camila] Com certeza, saber o preço que o seu mercado está praticando e poder utilizar um índice que reflita isso é a melhor forma de indexação possível, com menor riscos.

[Flávia] Sim, mas isso só é possível em mercados com diversidade de participantes e com uma quantidade robusta de transações. No caso do Brasil, temos ainda poucos consumidores de gás natural – podemos contar aí as 20 empresas distribuidoras de gás nos estados e algumas dezenas de indústrias que estão comprando seu gás diretamente dos produtores. Do lado dos vendedores, por enquanto a Petrobras ainda reina quase que como a única fornecedora. Mas, as distribuidoras realizaram chamadas públicas para interessados em fornecer gás a partir de 2022, e produtores estão chegando no mercado para competir com a Petrobras. Exemplo disso é o contrato da Shell com a Copergás em Pernambuco, e da Potiguar com a Potigás no Rio Grande do Norte, para citar apenas dois.

[Camila] E a Argus como agência de preços atuando no mundo todo e produzindo diariamente mais de 25 mil índices de preços para as principais commodities, inclusive gás, está acompanhando muito de perto a evolução desse mercado. Flávia, acho que vale a pena explicar a relevância de índices de preços publicados por agências de preço como a Argus.

[Flávia] Em mercados abertos, onde existe livre negociação entre compradores e vendedores, o preço de um produto reflete a oferta e a demanda, reflete as características logísticas, climáticas e de qualidade naquela localidade. O papel de agências de preços como a Argus é apurar o valor de tal commodity junto ao maior número possível de participantes de mercado, através de metodologias transparentes e apropriadas ao mercado. Outro ponto muito relevante: a Argus é uma empresa independente, e o nosso principal objetivo é produzir preços representativos. Somos signatários da IOSCO, a entidade que regulamenta as principais bolsas de valores do mundo todo, e seguimos uma séria de regras bastante rigorosas em relação à forma como trabalhamos. Além disso, nossos índices de preços são auditados interna e externamentas pela PriceWaterhouseCoopers. E é por isso que os indicadores de preços da Argus são usados como referência por empresas estatais, empresas privadas, autoridades governamentais e entidades internacionais no mundo todo, inclusive aqui no Brasil.

[Camila] E os preços de agências independentes como a Argus são usados para outras finalidades além da indexação de contrato, não?

[Flávia] Exato. O uso de um preço de referência por todo o mercado traz uma baliza para a negociação de contratos. Mas esses índices também são utilizados para marcar o valor de estoques, para transferência internas entre empresas do mesmo grupo, para medir desempenho de equipes, para gerenciamento de risco, cálculo de royalties e outros tipos de impostos.

[Camila] No mercado de gás e GNL, quais preços a Argus já tem e o que pretende produzir em um futuro próximo, Flávia?

[Flávia] Camila, no mercado de gas natural acompanhamos dezenas de preços diariamente nos Estados unidos e Na Europa, a Argus produz os benchmarks Argus TTF, Argus NBP, Argus Peg, Argus Germany VTP, Argus Austria VTP, Argus NCG, Argus Gaspool, e o Argus Northeast Asia des (ANEA).

No Brasil, já temos um preço de referência para o GNL entregue nos portos brasileiros, o Argus Brazil DES. O mercado de gás natural e gás natural liquefeito no Brasil está se preparando para a abertura, a partir da aprovação da lei do gás e das iniciativas Gás para Crescer e Novo Mercado de Gás, além do compromisso da Petrobras em desinvertir no setor e abrir espaço para passarmos de um monopólio para um mercado competitivo. Aqui está a chave desse novo momento: com a competição, múltiplos contratos serão firmados diariamente entre os diversos elos da cadeia, com prazos variados e uma gama de condições. E estamos acompanhando muito de perto esta transição para produzir índices locais assim que houver condições de mercado para tanto.

[Camila] Muito obrigada, Flavia. Vamos seguir acompanhando de perto cada passo em direção a esse mercado aberto e cada vez mais líquido.

Esse e os demais episódios do nosso podcast em português estão disponíveis no site da Argus em www.argusmedia.com/falando-de-mercado.

Visite a página para seguir acompanhando os acontecimentos que pautam os mercados globais de commodities e entender seus desdobramentos no Brasil e na América Latina. Voltaremos em breve com mais uma edição do “Falando de Mercado”. Até logo!

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