Falando de Mercado: Cresce capacidade de armazenagem de grãos no Brasil

Author Argus

O número de silos e armazéns no Brasil aumentou 26pc na última década. E os especialistas afirmam que há um movimento recente de aumento nos investimentos em novas estruturas. Mas qual é o real déficit de armazenagem no país?

Junte-se a Camila Dias, diretora da Argus no Brasil, e Alessandra Mello, editora assistente da publicação Argus Brasil Grãos e Fertilizantes. Elas conversam sobre os desafios do agronegócio brasileiro para que a capacidade de armazenagem acompanhe o crescimento da produção agrícola.  

  

 

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Transcript

CD: Olá e bem-vindos ao ‘Falando de Mercado’ – uma série de podcasts trazidos semanalmente pela Argus sobre os principais acontecimentos com impacto para os setores de commodities e energia no Brasil e no mundo. Meu nome é Camila Dias, sou diretora da Argus no Brasil. No episódio de hoje eu converso com a jornalista Alessandra Mello, editora assistente da publicação Argus Brasil Grãos e Fertilizantes sobre os investimentos recentes na expansão da capacidade de armazenagem da safra agrícola no Brasil e os desafios para que a produção siga avançando. Alessandra, bem-vinda.

AM: Obrigada, Camila, sempre bom participar do Falando de Mercado.

CD: Alessandra, o déficit de armazenagem no Brasil sempre foi muito comentado, como um dos gargalos do agronegócio no país. Como está a situação atualmente em relação a este tema?

AM: Olha Camila, primeiro precisamos falar da chamada capacidade estática de armazenagem, que é realmente o total que temos de silos e armazéns no país. Esta capacidade vem crescendo. Aumentou 26pc nos últimos 10 anos e atualmente é estimada em 177 milhões de toneladas, de acordo com a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). E a boa notícia é que conversei com o Estelito Reis, superintendente de armazenagem da Conab e ele está otimista em relação a uma possível aceleração neste crescimento. Ele nos disse que vem ouvindo de fabricantes e de produtores sobre o aumento nos investimentos para ampliar armazéns já existentes ou construir novos. Por isso, a expectativa é que as estimativas da Conab na safra 2022-23 já mostrem um avanço mais significativo. O Estelito lembrou que nós estamos num ciclo de cinco anos de alta nos preços de soja e milho e que, nos primeiros anos, os produtores priorizaram pagamento de dívidas e investimentos em insumos, para aumentar produtividade, mas agora estariam mais dispostos a investir na expansão da armazenagem.

CD: E há outros indicadores que mostram este maior interesse em ampliar a quantidade de silos e armazéns?

AM: Sim, Camila, nós levantamos alguns dados sobre a concessão de crédito no Brasil com foco nos investimentos em armazenagem. A principal linha de crédito neste segmento é o PCA, Programa para Construção e Ampliação de Armazéns, que vem crescendo ano a ano. O programa emprestou R$1,1 bilhão na safra 2018-19 e chegou a R$1,7 bilhão em 2020-21. Na atual safra 2021-22, o programa já liberou R$1,6 bilhão aos agricultores, mas a liberação dos empréstimos foi suspensa em fevereiro, quando a taxa básica de juros no Brasil aumentou e o Tesouro Nacional informou estar sem recursos para manter os subsídios. A concessão de crédito do PCA foi retomada só em meados de junho. Se não houvesse esta interrupção, no orçamento original do Ministério da Agricultura a previsão era oferecer R$4,2 bilhões pelo PCA na safra 2021-22, justamente devido à demanda crescente. No plano safra 2022-23 que foi anunciado recentemente, o governo pretende oferecer R$5,13 bilhões para financiar armazenagem.

CD: E neste período que o crédito ficou suspenso, estes investimentos não foram afetados?

AM: O que temos ouvido é que o produtor busca outras formas de financiamento, o crédito diretamente com os bancos, sem a taxa subsidiada do governo, por exemplo. Uma tendência que vem sendo verificada no Paraná é a criação de condomínios, grupos de produtores que fazem uma parceria formal para construir armazéns e compartilham a estrutura, mas isso ainda não ocorre em todas as regiões do Brasil porque em alguns estados a legislação tributária não torna o negócio viável financeiramente. E outra novidade recente é um mecanismo financeiro criado em 2021, os chamados Fiagros, Fundos de Investimentos nas Cadeias Produtivas Agroindustriais. Uma grande fabricante de silos e armazéns, a Kepler Weber, em conjunto com o banco BTG Pactual, vem oferecendo empréstimos com prazo de 10 anos aos produtores rurais por meio deste novo sistema.

CD: Alessandra... mas apesar destes avanços, o déficit ainda existe certo? Armazenagem continua sendo um entrave para que a produção agrícola siga crescendo?

AM: Sem dúvida, Camila. O crescimento recente na capacidade está longe de resolver o problema de déficit de armazenagem no Brasil. Entre 2001 e 2021, a produção brasileira de grãos e oleaginosas cresceu a uma taxa média de 4,5pc ao ano. No mesmo período a capacidade estática de armazenagem avançou em ritmo mais lento, em média 3,3pc ao ano. Quem nos passou estes dados foi a Elisângela Pereira Lopes, assessora técnica de logística e infraestrutura da Confederação Nacional de Agricultura (CNA). Como a produção brasileira de grãos e oleaginosas foi de 266 milhões de toneladas na última safra, alguns analistas consideram que o déficit seria a diferença entre este volume e a capacidade atual de 177 milhões de toneladas. Mas os especialistas ouvidos pela Argus dizem que este raciocínio não está correto já que no Brasil planta-se três safras ao longo do ano e os maiores volumes, de soja e de milho, têm maior demanda por armazenagem em épocas diferentes do ano. O maior gargalo ocorre quando começa a colheita de determinada cultura, como agora, na colheita da safra de inverno de milho, e ainda há muito volume a ser comercializado da safra de soja de verão, por exemplo. O ritmo mais lento nas vendas antecipadas de soja e milho na safra 2021-22 é outro sinal de que, possivelmente, a necessidade de liberar armazéns entre o verão e o inverno, e vice-versa, já não seja um problema tão grave como era no passado, mas pode sim se agravar daqui para frente e limitar o crescimento do agro brasileiro.

CD: Se o déficit não é simplesmente a diferença entre capacidade e produção, qual seria então?

AM: Esta é a grande questão, ninguém sabe com certeza. Comenta-se que a lei brasileira obrigada que a cada armazém construído o Ministério da Agricultura seja informado, mas não há penalidade para quem não fizer este registro, por isso é muito difícil saber se as estatísticas oficiais estão realmente atualizadas. Para tentar identificar o déficit real de armazenagem no país e solicitar ao governo políticas públicas que ajudem a minimizar o problema, a CNA contratou uma consultoria e promete finalizar em quatro meses um diagnóstico completo sobre o tema, indicando quais regiões em cada estado possuem a maior necessidade. Sabe-se que em estados como o Paraná, por exemplo, o déficit é muito baixo porque a logística de escoamento é melhor, mais barata, e os produtores vem se organizado em condomínios, como eu citei. Já nas regiões Centro-Oeste e Nordeste do país é possível ver déficits acima de 50pc do total produzido em alguns casos. O estudo que está sendo feito também deve mapear o uso de novas tecnologias de armazenagem, como o silo bag, estruturas flexíveis que estão sendo cada vez mais usadas por produtores rurais, embora não haja uma estatística oficial sobre este tema também.

E só pra encerrar Camila, queria mencionar uma informação que considero bastante relevante. No Brasil, apenas 15pc das estruturas de armazenagem estão dentro das propriedades rurais, já que a maioria pertence a tradings e cooperativas. De acordo com a CNA, nos principais concorrentes do Brasil a situação é mais favorável ao produtor. Nos Estados Unidos 65pc dos armazéns estão nas propriedades e na Argentina, 40pc. As lideranças de produtores querem mudar esta situação para permitir melhores estratégias de comercialização, esperar mais tempo e vender na entressafra por exemplo, com preços melhores. É um desafio e tanto para o país.

CD: Com certeza, Alessandra, muito obrigada e até a próxima.

AM: Até a próxima.

Esse e os demais episódios do nosso podcast em português estão disponíveis no site da Argus em www.argusmedia.com/falando-de-mercado.

Visite a página para seguir acompanhando os acontecimentos que pautam os mercados globais de commodities e entender seus desdobramentos no Brasil e na América Latina. Voltaremos em breve com mais uma edição do “Falando de Mercado”. Até logo!

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