Falando de Mercado: Demanda por óleos básicos aumenta em cenário de oferta apertada

Author Argus

Nos últimos meses, a demanda por óleos básicos na América Latina aumentou à medida em que a oferta se restringiu nos mercados regional e global. A oferta de óleos básicos ficou especialmente restrita nos mercados europeu e dos Estados Unidos

Junte-se a Camila Dias, diretora da Argus no Brasil, e Kauanna Navarro, repórter de Óleos Básicos para América Latina da publicação Argus Americas Base Oils. Elas falam sobre a dinâmica entre oferta e demanda por óleos básicos na América Latina e globalmente.

 

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Transcript

 

CD: Olá e bem-vindos ao ‘Falando de Mercado’ – uma série de podcasts trazidos semanalmente pela Argus sobre os principais acontecimentos com impacto para os setores de commodities e energia no Brasil e no mundo. Meu nome é Camila Dias, diretora da Argus no Brasil. No episódio de hoje, converso com Kauanna Navarro, repórter da publicação Argus Americas Base Oils, sobre a oferta e demanda por óleos básicos globalmente e nos mercados latinos. Bem-vinda, Kauanna.

KN: Oi, Camila. É um prazer falar com você.

CD: Kauanna, como está a demanda por óleos básicos nos mercados latino-americanos após dois anos de pandemia e com o conflito em curso na Europa?

KN: Camila, os mercados latino-americanos realmente sofreram com a recessão econômica causada pela pandemia. As pessoas ficaram trancadas em suas casas por quase um ano, esperando as vacinas chegarem. Isso reduziu o uso do carro e, consequentemente, reduziu as trocas de lubrificantes. A indústria também utiliza óleos básicos, mas a capacidade de operação foi reduzida em todo o mundo, reduzindo a demanda por lubrificantes. O cenário é pior quando consideramos economias não tão consolidadas como nos países europeus e os EUA, que é o caso de toda a América Latina.

Aqui, a demanda foi lenta em 2020 e continuou assim em 2021. E, quando todos as engrenagens pareciam estar de volta ao ritmo normal, o conflito Rússia-Ucrânia prejudicou a oferta e retardou a recuperação da demanda.

Nos últimos meses, contudo, vimos a demanda por óleos básicos na América Latina aumentar ao mesmo tempo que a oferta ficou mais apertada nos mercados regionais e globais – não tanto porque as vendas de lubrificantes voltaram aos níveis anteriores à pandemia, mas mais como resultado de estoques menores.

CD: Não é um cenário fácil para o mercado de óleos básicos Você mencionou que o conflito Rússia-Ucrânia afetou o fornecimento. Você poderia explicar mais?

Os suprimentos russos não estão mais entrando no mercado europeu. Isso deixou uma lacuna a ser coberta por produtores locais do Grupo I e II.

A Rússia normalmente produz cerca de 1,2 milhão de toneladas por ano de óleos básicos do Grupo I. A maior parte do volume produzido abastece o mercado doméstico russo e os mercados vizinhos, mas parte da produção é direcionada ao mercado europeu. Com o conflito atual, a produção russa parou de atender países europeus, uma consequência das sanções e boicotes da União Europeia.

CD: Esta é a principal razão para a oferta global mais restrita?

Na verdade, não. Além da escalada do conflito entre Rússia e Ucrânia, o mercado europeu passou por uma pesada rodada de manutenção de unidades regionais. Pelo menos 24pc da capacidade nominal de produção de Grupo I europeu estava fora de operação em junho, de acordo com acordo com o índice de fornecimento da Argus, já que três refinarias importantes na região passaram por manutenção ao mesmo tempo. Agora, essas manutenções estão quase concluídas e a produção está voltando aos níveis normais.

CD: Os mercados latinos importam principalmente produtos dos EUA, certo? Como a Europa afeta nossos mercados?

Existem duas situações diferentes. Primeiro, a oferta dos EUA também foi reduzida. A disponibilidade de Grupo II também está restrita, com manutenções mais cedo do que o esperado em várias refinarias importantes da costa do Golfo dos EUA. Em junho, uma refinaria importante substituiu seu catalisador. Outras duas refinarias trocarão os catalisadores no terceiro trimestre deste ano e no primeiro trimestre de 2023.

A demanda doméstica nos EUA também está mantendo a oferta equilibrada. Alguns participantes do mercado estão construindo e mantendo estoques para a temporada de furacões no Atlântico, que vai de junho até o fim de novembro. Isso tudo limita a disponibilidade de produto no mercado spot para a América Latina.

A segunda questão é que os mercados latinos compram óleos básicos do Grupo II produzidos na Europa. A restrição de Grupo I no mercado europeu deixou uma lacuna de fornecimento a ser coberta por produtores locais de Grupo I e II. Misturadores de Grupo I estão mudando suas formulações para o Grupo II, o que aumentou os custos do Grupo II. Os preços mais altos dos óleos básicos também podem ser atribuídos a matérias-primas mais caras e fornecimentos mais restritos de gasóleo a vácuo (VGO), ambos afetados por sanções ao petróleo russo e produtos derivados. Em junho, o prêmio do VGO em relação ao petróleo WTI subiu para os níveis mais altos desde março de 2013.

CD: Basicamente, os mercados latino-americanos estão disputando produtos com a Europa e os Estados Unidos? E como está a situação na região Ásia-Pacífico?

A demanda na Europa está enfraquecendo, e os preços atuais e as taxas de frete estão desencorajando os compradores latino-americanos.

Na região Ásia-Pacífico, a demanda regional mais fraca e a produção crescente aumentou a disponibilidade no mercado spot. Parte do excesso da oferta é direcionada aos mercados latino-americanos, onde especialmente compradores sul-americanos estão dispostos a aceitar preços mais altos para atrair importações. Mas as restrições logísticas, o espaço limitado dos navios e o aumento das taxas de frete reduziram o fluxo das remessas da Ásia-Pacífico para a região.

CD: Além da situação de abastecimento, também temos problemas logísticos?

Com toda certeza. Eu diria até que a logística é agora tão importante ou, talvez, até mais importante do que a restrição no fornecimento.

CD: Por que você acha isso?

Ah, porque as manutenções estão acabando. Além disso, a demanda na Europa não é tão forte quanto nos EUA. Mas a logística é um grande problema, e a luz no fim do túnel ainda não está tão clara. Hoje, não há muitos navios disponíveis para os mercados sul-americanos; quando existe navio, não tem espaço suficiente para cargas de, em média, 7.000t. Além disso, estamos enfrentando uma escassez global de fornecimento de bunker, o que gerou demanda de alguns armadores e afretadores para travar volume por meio de contratos de despacho, e poucos vendedores de combustível podem atender a essas solicitações. Fora que as taxas de frete continuam aumentando, o que torna as importações menos competitivas para os compradores da América Latina.

CD: Todos esses fatores se aplicam ao Brasil. Mas há algo mais que você acrescentaria sobre o momento atual do mercado de óleos básicos no Brasil?

Eu sempre tenho algo a mais a dizer sobre o Brasil. Nossa produção doméstica normalmente é suficiente para cobrir a demanda. Mas os recentes aumentos de preços incentivaram alguns compradores brasileiros a buscar abastecimento alternativos. A expectativa geral é a de que as importações para o Brasil aumentem no segundo semestre deste ano.

As refinarias brasileiras estão priorizando a produção de diesel, que está com margens mais altas. O que estamos vendo é que a demanda doméstica por combustíveis deve aumentar antes e durante o último trimestre do ano, quando acontece o pico de transporte de grãos no país. Essa dinâmica deve reduzir a produção doméstica de óleo básico, tornando os compradores brasileiros mais dependentes das importações para cobrir a demanda adicional.

E, geralmente, os preços domésticos no Brasil são mais baixos do que na Europa ou mesmo na Ásia. Esse cenário está mudando nos últimos meses, e os preços da Petrobras estão cada vez mais alinhados com os preços globais.

Os preços de óleo básico do Grupo I e naftênicos no Brasil continuam subindo. Os preços subiram 20pc em abril, 15pc em maio e mais 10pc em junho. Em julho, o ritmo de aumento diminuiu e a alta foi de 4pc.

CD: Há muita coisa acontecendo nos mercados de óleos básicos da América Latina, então. Obrigado, Kauanna.

Esse e os demais episódios do nosso podcast em português estão disponíveis no site da Argus em www.argusmedia.com/falando-de-mercado

Visite a página para seguir acompanhando os acontecimentos que pautam os mercados globais de commodities e entender seus desobramentos no Brasil e na América Latina. Voltaremos em breve com mais uma edição do “Falando de Mercado”. Até logo!

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