Falando de Mercado: Produtores globais de fertilizantes intensificam participação no mercado brasileiro

Author Argus

Acron, Eurochem, Nutrien, OCP, Uralkali movimentam suas peças no tabuleiro do mercado corporativo brasileiro.

O país caminha para ter mais misturadoras e distribuidoras de fertilizantes com controle estrangeiro, em um momento em que o governo estuda expandir a produção nacional de fertilizantes.

Junte-se a Camila Dias, chefe de redação da Argus no Brasil, e Renata Cardarelli, repórter da publicação Argus Brasil Grãos e Fertilizantes. Elas conversam sobre processos de vendas de controles acionários de companhias brasileiras e a participação de estrangeiros no mercado doméstico.

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Transcript

Camila Dias: Olá e bem-vindos ao ‘Falando de Mercado’ – uma série de podcasts trazidos semanalmente pela Argus sobre os principais acontecimentos com impacto para os setores de commodities e energia no Brasil e no mundo. Meu nome é Camila Dias, chefe de redação da Argus no Brasil. No episódio de hoje, converso com Renata Cardarelli, repórter da publicação Argus Brasil Grãos e Fertilizantes, sobre a intensificação da participação de produtores globais de fertilizantes no mercado brasileiro. Bem vinda, Renata.

Renata Cardarelli: Olá, Camila. É um prazer estar aqui.

CD: Renata, a Eurochem concordou em dezembro de 2021 em comprar 51,48pc da produtora brasileira de fertilizantes Heringer. O que aconteceu até agora e o que esse acordo significaria?

RC: A venda do controle acionário da produtora brasileira de fertilizantes Heringer para a russa Eurochem pode intensificar a concorrência no Brasil e aumentar a participação dos russos no mercado brasileiro, Camila. O negócio aumentaria a produção de misturas NPK no país e fortaleceria a Heringer, que tem participação em todas as regiões agrícolas do Brasil, ao mesmo tempo em que aumentaria o controle estrangeiro do mercado brasileiro de fertilizantes.

CD: Você poderia detalhar o movimento da Eurochem para comprar a Heringer, Renata?

RC: Claro, mas vamos dar um passo atrás, Camila, porque o processo de venda do controle da Heringer é quase uma novela. O primeiro capítulo é de 2018, quando acreditava-se que a Nutrien estava negociando a compra da Heringer, mas não conseguiu definir um preço. As empresas nunca confirmaram publicamente nenhuma discussão nesse sentido, mas fontes do mercado afirmam que a Nutrien perdeu o interesse quando a Heringer entrou em um plano de recuperação judicial. E essa não foi a única vez que as negociações para a venda do controle da Heringer falharam. Em 2020, a Heringer tentou vender o controle para as russas Uralkali e Uralchem, mas o negócio fracassou cerca de um mês depois de o Cade aprovar a venda.

Desta vez, o fim da novela pode ser diferente. A última decisão é de 25 de janeiro, quando o Cade aprovou, sem restrições, a venda do controle da Heringer para a russa Eurochem. As duas empresas terão pelo menos 20pc de participação no mercado total de fertilizantes brasileiro, informou o órgão regulador em sua decisão. E cabe lembrar, Camila, que a Heringer já tem empresas internacionais como importantes acionistas. A Nutrien possui uma participação de 9,5pc na Heringer, enquanto a marroquina OCP tem uma participação de 10pc.

CD: Renata, se eu estiver errada, me corrija, mas a Eurochem já tem o controle acionário de outra empresa brasileira, correto?

RC: Você está absolutamente certa, Camila. Desde 2016, a Eurochem detém o controle acionário da Fertilizantes Tocantins e, em junho de 2020, a produtora russa chegou a um acordo para adquirir as ações remanescentes da Fertilizantes Tocantins. Segundo a empresa, sua participação de mercado é de cerca de 8pc. Mas a Eurochem não é a única estrangeira no mercado brasileiro. Outra russa, a Acron, concordou no início de fevereiro de 2022 em adquirir a unidade de ureia e amônia da estatal Petrobras, localizada em Três Lagoas, em Mato Grosso do Sul. Esse possível negócio está em fase inicial e a assinatura do contrato está sujeita aos processos de governança corporativa da Petrobras e a aprovações governamentais. Já a produtora, também russa, Uralkali concordou em adquirir uma participação de 50pc na misturadora Fertgrow em dezembro de 2021. A Fertgrow fornece fertilizantes para clientes nos estados do Maranhão, Piauí, Tocantins, Pará e Mato Grosso. Ainda cabe ao Cade avaliar o negócio. Se tudo ocorrer como planejado, a empresa pretende dobrar sua participação de mercado em sua área de comercialização de cloreto de potássio dos atuais 18pc até 2025. A CMOC, anteriormente denominada Copebrás, é outra empresa controlada por uma estrangeira. O grupo chinês CMOC controla as operações brasileiras desde 2016. A CMOC atua nos estados de Goiás e São Paulo produzindo fosfatados para o mercado interno.

CD: Interessante, quando se trata de exploração, os produtores internacionais também estão envolvidos no mercado brasileiro?

RC: Estão sim, Camila. A Potássio do Brasil, controlada pela canadense Forbes & Manhattan, solicitou uma licença de operação para exploração de potássio em Itapiranga, no Amazonas, em junho de 2021. A empresa estima que o projeto teria capacidade anual de produção de 2 milhões de toneladas de cloreto de potássio. O projeto Autazes, da Potássio do Brasil, também no estado do Amazonas, está em processo de licenciamento e deverá produzir 2,4 milhões de t/ano de cloreto de potássio. Não há informações sobre os prazos para o início das operações. E mais uma vez, a Eurochem: as autoridades brasileiras aprovaram em setembro de 2021 a compra pela Eurochem do projeto de fosfatos Serra do Salitre da produtora norueguesa Yara, no sudeste de Minas Gerais, por $410 milhões. O projeto deve colocar em operação uma unidade de fosfatados de 1 milhão de t/ano, produzindo MAP, NP, SSP e TSP, em 2023.

CD: O Brasil caminha para ter mais misturadoras e distribuidoras de fertilizantes com controle estrangeiro, em um momento em que o governo brasileiro estuda expandir a produção nacional de fertilizantes. O que isso pode significar, Renata?

RC: Fontes do governo brasileiro acreditam que o aumento das fusões e aquisições está estritamente ligado aos preços historicamente altos dos fertilizantes no mercado à vista e ao fato de o Brasil ser um mercado consumidor chave. O aumento da participação estrangeira também é impulsionado pela sinalização do governo brasileiro de que o país pretende reduzir a burocracia legal para desenvolver a produção nacional de fertilizantes. Vamos lembrar, Camila, como você bem mencionou, que o governo brasileiro estuda meios para aumentar a produção nacional de fertilizantes. Em março de 2021, a ministra da Agricultura do Brasil, Tereza Cristina, iniciou discussões para desenvolver o Plano Nacional de Fertilizantes, com o objetivo de reduzir a dependência do Brasil de fertilizantes importados.

CD: Mas imagino que o Brasil ainda esteja muito longe de produzir a maioria dos fertilizantes consumidos. A demanda brasileira por fertilizantes deve persistir?

RC: Com certeza, Camila, a demanda deve continuar forte, pois o país continua tendo um papel de liderança na agricultura e, sim, a produção local de fertilizantes está longe de atender às demandas agrícolas. O Brasil importa cerca de 80pc de fertilizantes consumidos a cada ano. De acordo com a Associação Nacional para Difusão de Adubos, a Anda, 40,6 milhões de t de fertilizantes foram entregues em 2020, sendo 6,4 milhões de t provenientes de produção nacional. Os dados mais recentes referentes a 2021 mostram que 38,3 milhões de t foram entregues até outubro, com cerca de 5,5 milhões de t representando a produção doméstica.

CD: Muito obrigada, Renata.

Esse e os demais episódios do nosso podcast em português estão disponíveis no site da Argus em www.argusmedia.com/falando-de-mercado.

Visite a página para seguir acompanhando os acontecimentos que pautam os mercados globais de commodities e entender seus desobramentos no Brasil e na América Latina. Voltaremos em breve com mais uma edição do “Falando de Mercado”. Até logo!

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