Falando de Mercado: Balanço sobre o sistema de vendas diretas de biodiesel

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O sistema de venda direta de biodiesel entre usinas e distribuidoras substituiu os leilões públicos e está perto de completar dois meses de operação.

Junte-se a Camila Dias, diretora da Argus no Brasil, e Alexandre Melo, repórter da publicação Argus Brasil Combustíveis, que fazem um balanço sobre este mercado e o que influencia as negociações.

Quer ficar por dentro das mudanças no mercado brasileiro de biodiesel? Assista o webinar gratuito on demand: O Novo Mercado Brasileiro de Biodiesel: Desafios e Oportunidades

Transcript

Camila Dias: Olá, e bem-vindos ao Falando de Mercado, uma série de podcasts trazidos semanalmente pela Argus sobre os principais acontecimentos com impacto para os setores de commodities e de energia no Brasil e no mundo.

Meu nome é Camila Dias, eu sou diretora da Argus no Brasil, e no episódio de hoje eu converso com Alexandre Melo, repórter da publicação Argus Brasil Combustíveis, sobre o balanço dos primeiros quase dois meses do mercado de vendas diretas de biodiesel e o que esperar para o setor no segundo bimestre deste ano. Bem-vindo, Alexandre.

Alexandre Melo: Obrigado, Camila. É bom estar aqui novamente.

CD: Alexandre, conta pra gente como está sendo este início do mercado de vendas diretas de biodiesel entre usinas e distribuidoras de combustíveis.

AM: Camila, do ponto de vista operacional, tem sido um bimestre sem rupturas na cadeia, algo que preocupava muitas distribuidoras em dezembro de 2021, devido ao fim dos leilões e o início do sistema de vendas diretas. As varejistas foram cautelosas e decidiram contratar volume de biodiesel superior ao mínimo regulatório exigido pela ANP, a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis.

Para você ter uma ideia, foram vendidos 957.000 m³ para janeiro e fevereiro sob regime de contratos ou 36pc acima da meta. Entre as maiores redes, a Vibra Energia comprou 148pc do exigido, a Ipiranga 160pc, a Raízen 118pc, a Atem 223pc, a Sabbá 108pc e a ALE 104pc. E o que isso significa, Camila? Que as distribuidoras comprarão pouquíssimo volume de biodiesel no mercado à vista neste bimestre.

Essa mudança no sistema de vendas gerou insegurança entre as varejistas e as usinas. Alguns produtores não quiseram participar do mercado neste bimestre e muitos deles preferiram vender a totalidade de suas produções em contratos para assegurar a demanda. Entre as distribuidoras, o racional foi assegurar preços mais competitivos na modalidade de contrato em meio ao receio de valores mais altos do produto para pronta entrega.

CD: Os contratos futuros do óleo de soja na Bolsa de Chicago registraram fortes altas neste início de ano. Qual foi o reflexo disso no preço do biodiesel?

AM: Bem observado, Camila. A maioria dos participantes de mercado definiu a fórmula dos preços do biodiesel no primeiro bimestre considerando as seguintes variáveis: cotação do contrato futuro do óleo de soja em Chicago, câmbio e o chamado “basis”, que é um prêmio ou desconto do óleo vegetal brasileiro em relação ao benchmark.

Você deve se lembrar que logo na primeira semana de janeiro houve um rali no preço da commodity, que aliás, que assustou os compradores que deixaram a referência do preço em Chicago flutuante. A cotação saiu de 56 para 65 centavos de dólar por libra-peso entre dezembro e fevereiro.

Os motivos para essa disparada foram a seca na América do Sul que levou às quebras das safras de soja no Brasil, na Argentina e no Paraguai; a forte demanda asiática pelo grão e pelo óleo vegetal e, mais recentemente, a tensão geopolítica entre a Rússia e a Ucrânia.

E Camila, olha que curioso: já na segunda semana de janeiro, as distribuidoras pediram às usinas para reverem suas opções de precificação do biodiesel que será retirado no bimestre. Algo que não é comum, considerando que as partes fizeram um contrato. Os fornecedores aceitaram, mas pediram o tratamento isonômico quando o preço do óleo de soja cair lá pelo auge da safra.

CD: Como ficaram as retiradas de biodiesel pelas varejistas em janeiro?

AM: As coletas ficaram oscilaram entre 85pc e 95pc do volume previsto para janeiro, segundo um levantamento feito pela Argus. Isso aconteceu por três motivos: o primeiro foi o estoque elevado do produto feito pelo varejo em dezembro para se antecipar à alta dos preços neste início de ano.

O segundo foi a quebra na safra de grãos na região Sul do país que levou ao consumo menor de diesel B, que é misturado ao biodiesel. O terceiro foi a queda na demanda ocasionada pelo corte no suprimento de diesel A pela Petrobras, levando parte das distribuidoras regionais e de bandeira branca a reduzirem suas vendas por não buscarem produto importado nos portos de Paranaguá (PR) e Santos (SP).

CD: Alexandre, por mais que a liquidez esteja menor neste bimestre pelos motivos que você comentou anteriormente, quais regiões estão se destacando nas negociações no mercado à vista?

AM: Goiás tem se destacado nas negociações de biodiesel para pronta entrega, Camila. Isso porque temos usinas que não precisaram atender à meta de venda da ANP e que iniciaram a operação recentemente. Estes produtores estão vendendo quase que diariamente para as varejistas dentro do estado e também abastecendo o Norte e o Nordeste.

Além disso, também estamos observando negócios em Mato Grosso e, com um pouco menos de liquidez no Rio Grande do Sul e no Paraná.

CD: A quebra na safra de soja ocasionada pela seca na região Sul está se refletindo nos preços do biodiesel?

AM: Já estamos observando esse efeito no biodiesel negociado na modalidade de contrato porque a seca impulsiona os contratos futuros do grão e do óleo vegetal em Chicago e reflete nos custos das usinas.

Temos ouvido de produtores e compradores que a parcela variável de remuneração de parte das usinas do Sul e do Centro-Oeste está entre 5 e 10pc maior para março e abril. Além disso, o sebo bovino, que é o segundo insumo mais usado para fabricar biodiesel, tem registrado forte alta nos preços devido à forte correlação com o óleo de soja.

CD: Qual é o cenário para o mercado à vista de biodiesel no segundo bimestre?

AM: Camila, a expectativa é de competição maior entre os produtores porque teremos novas usinas em operação entre março e abril. Também já estamos ouvindo dos participantes de mercado que os preços estão mais altos.

Um fator importante é que o estado de São Paulo e outros sete aderiram em janeiro ao novo regime tributário para o biodiesel criado pelo Confaz, o Conselho Nacional de Política Fazendária, dentro do novo sistema de vendas diretas.

Essa adesão é importante porque tornará as poucas usinas de biodiesel em São Paulo mais competitivas para fornecer produto às distribuidoras em Paulínia, principal terminal do país. O custo logístico tende a ser menor quando comparado com o de comprar produto no Paraná ou no norte do Rio Grande do Sul.

CD: Obrigada, Alexandre. Vamos continuar acompanhando os desdobramentos desse novo mercado aberto de biodiesel no Brasil.

Esse e os demais episódios do nosso podcast em português estão disponíveis no site da Argus em www.argusmedia.com/falando-de-mercado. Visite a página para seguir acompanhando os acontecimentos que pautam os mercados globais de commodities e entender seus desdobramentos no Brasil e na América Latina. Voltaremos em breve com mais uma edição do “Falando de Mercado”. Até logo!

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