Falando de Mercado: Perspectivas para o setor elétrico em 2022

Author Argus

Passamos com aperto por 2021, com pouca geração hidrelétrica e altos custos. E em 2022? Vamos passar mais longe do risco de um apagão?

Junte-se a Camila Dias, chefe de redação da Argus Brasil, e Flávia Pierry, editora de Gás Natural e Energia. Elas falam sobre as perspectivas para o setor elétrico neste ano. 

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Transcript

[Camila] Olá, e bem-vindos ao Falando de Mercado, uma série de podcasts trazidos semanalmente pela Argus sobre os principais acontecimentos com impacto para os setores de commodities e energia no Brasil e no mundo.

Meu nome é Camila Dias, eu sou chefe de redação da Argus no Brasil, e no episódio de hoje eu converso com Flávia Pierry, editora de Gas Natural e Energia. Vamos conversar sobre as perspectivas para o setor de energiqa elétrica para o Brasil em 2022, os riscos e os custos.

Seja bem-vinda, Flávia.

[Flávia] Obrigada, Camila.

[Camila] Flávia, em 2021, uma severa seca reduziu a capacidade de gerar energia nas usinas hidrelétricas e demandou que o Operador Nacional do Sistema Elétrico, o ONS, lançasse mão de toda energia disponível, inclusive as fontes com maior custo, para evitar um apagão. E para 2022, o que podemos esperar?

[Flávia] Camila, sempre que alguem coloca na mesma frase eletricidade e “São Pedro”, já começo a ter urticárias. Obviamente a situação em que chegamos em outubro de 2021, com reservatórios das hidrelétricas em seu pior nível não tem nada a ver com São Pedro. Cabe aos gestores e planejadores públicos pensar em como se preparar para eventos extremos, como secas ou cheias, e termos chegado em 2021 lutando por cada Megawatt adicional expos isso com nitidez.

Mas, de fato estamos tendo uma ajuda dos céus para este começo de 2022. Grande parte dos residentes no Brasil puderam perceber como tem chovido desde o meio de dezembro – inclusive com áreas de alagamentos severos, como os que atingiram parte do estado da Bahia.

2022 chegou como um ano no qual o fenômeno climático La Niña está ocorrendo, e isso resulta em secas no Sul do nosso território e chuvas acima da média para as outras regiões. Sem dúvida, a discarga de água nos reservatórios da região Sudeste e Centro-oeste chegam em boa hora. Já pensou se tivéssemos um 2022 com o fenômeno El Niño, que traz mais secas para o sudeste e centro-oeste, em um cenário de reservatórios já muito baixos?

[Camila] Então começamos o ano reabastecendo nossos reservatórios. Isso com certeza é positivo. Mas é suficiente para dizermos que este é um ano de tranquilidade?

[Flávia] Estamos reabastecendo, Camila. As autoridades do setor elétrico consideram que o período de encher reservatório vai até abril, e depois disso é quando supostamente teríamos de arbitrar, ligar mais usinas térmicas para manter os estoques de forma segura até novembro- quando a chuva recomeça –, mantendo a modicidade tarifária, ou seja, buscando a combinação entre não gastar toda a água do reservatório, usar algum volume da geração térmica, que é mais cara, para chegar a uma combinação adequada entre segurança e custo.

O ONS estima que chegaremos a junho de 2022 com reservatórios do Sudeste/ Centro-Oeste em 47%, ou 18 pontos percentuais acima do observado um ano antes. Esse é um patamar bom, longe de ser de tranquilidade, mas ao menos que não enseja preocupação, como passamos em 2021, pensando que um apagão por falta de eletricidade para atender a demanda estaria ao virarmos a esquina!

Mas se trouxermos sua pergunta sobre “tranquilidade” para o bolso do consumidor de energia, daí já temos outra história diferente...

2022 ainda não será um ano típico, já que os reservatórios das hidrelétricas começam o ano baixos e precisam ser recarregados, o que ainda demandará alguma geração adicional termelétrica este ano.

E mesmo que “alguma” geração seja algo que não onere tanto o consumidor, estamos trazendo contas caras ainda do ano passado... E ainda teremos alguma conta extra sendo contratada neste ano.

[Camila] Pode dar alguns exemplos de que contas são essas e de quão caras elas são?

[Flávia] Vamos começar pelas contas de 2021. Com a geração térmica sendo acionada em sua totalidade, tivemos usinas com custo até R$ 2.500,00 o Megawatt/Hora sendo chamadas a gerar. Esse é um valor alto, se pensarmos que a agência nacional de energia elétrica, a Aneel, considerou que o preço mínimo de liquidação das diferenças de eletricidade este ano é de R$ 55,70 por Megawatt/hora.

Tivemos uma seca em um ano no qual o custo dos combustíveis estava caro no mundo todo, com a retomada da atividade economica depois do primeiro ano de pandemia.

Com menos água nos reservatórios, as térmicas mais caras e algumas que operavam no mercado spot foram acionadas, gerando encargos para as distribuidoras que atendem os consumidores regulados.

Parte desse gasto foi paga com as bandeiras tarifárias – inclusive uma bandeira nova que tivemos esse ano, a “escassez hídrica”. Mas parte do custo não foi compensado e as distribuidoras começaram a ficar com dificuldade de caixa....

No começo de 2022, foi aprovado mais um empréstimo pras distribuidoras. Elas vão pegar alguns bilhões de reais com bancos para arcar com essa conta. E os valores do empréstimo serão pagos em alguns anos pelos consumidores na conta de luz. Inicialmente, falava-se que esse emprestimo poderia ser de entre R$ 10 e R$15 bilhões. Mas veja: o começo das chuvas acima da média já pode ter reduzido um pouco essa pressão, e esse valor pode ter sido reduzido bastante. O montante oficial ainda não foi anunciado.

Outra conta cara que ainda vai vir foi a do leilão emergencial. Esse leilão, realizado em outubro, foi desenhado para ajudar o país a suprir a demanda energética e principalmente complementar a potência, dar mais segurança a matriz com usinas térmicas, durante o período mais forte de seca.

Esse leilão contratou térmicas de maio de 2022 até 2026, com preços bem altos. Em 2022, esse leilão aumentou a potência térmica em 785 MW, e a partir de 2023, em 1,1 GW. O custo total dessa geração extra, para dar mais segurança a nossa geração, foi de R$11,7 bilhões ao ano, pagos como encargo por todos os consumidores de energia do país, regulados e livres.

O ONS fez as contas para saber qual o resultado desse leilão nos problemas que enfrentamos com a seca: sem esse leilão, a probabilidade de o país ter um apagão por perda de carga em 2023 seria de 3%, desconsiderando outros fatores ou outros leilões que possam ser feitos até lá. Com o leilão, essa probabilidade caiu para 1,5%. Em 2025, sem o leilão emergencial a probabilidade de não se atender a carga elétrica seria de 8,6% sem o leilão, e essa chance caiu para 5,1% com o leilão – Ainda acima dos 5% considerados como “limite” pelas autoridades.

E todo esse custo resulta, pelas projeções do ONS, em apenas 0,8% a mais de nível dos reservatórios do Sudeste/Centro-Oeste.

[Camila] Ou seja: dá pra gente ver como é caro trazer mais segurança energética, principalmente quando deixamos para fazer isso de forma emergencial.

[Flávia] Pois é, Camila. E é por isso que todo debate sobre energia, planejamento, custos não pode ser feito que nem torcida, com 200 milhões de especialistas. O assunto é complexo.

Em 2022, podemos não estão mais “da mão para a boca” com a energia térmica, já que as projeções veem continuidade das chuvas acima da média. Mesmo assim, o ONS estima que precisaremos de uma geração térmica média de 15 mil MW, conforme deliberação do Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico em sua primeira reunião do ano.

[Camila] Uma pergunta fundamental que deve ser feita para encerrarmos esse bate-papo, Flávia: o que estamos fazendo para reduzirmos as chances de repetirmos 2021?

[Flávia] Camila, fazemos muito pouco. Um ponto positivo foi a realização do primeiro leilão de potência separado da energia. Isso permite que o governo contrate térmicas para estarem disponíveis para gerar em algum momento de pico, reduzindo a insegurança energética quando a demanda estiver alta.

Porém, o setor elétrico brasileiro ainda precisa enfrentar assuntos sérios e polêmicos. Já falamos aqui do descompasso do PLD com o preço real da energia quando está alta, já falamos também sobre como o cálculo do PLD tem problemas pois os sistemas computacionais podem estar olhando a situação de chuvas e secas de forma equivocada, já falamos como é danoso que o Operador não possa confiar no sistema e tenha de definir o despacho termelétrico fora dos sistemas computacionais.... Tudo isso, sem nem mesmo entrarmos nas necessidades de aprimoramento regulatório, ou sobre como o setor precisa se preparar para um mercado totalmente livre, em novas tecnologias, carros elétricos, mais geração descentralizada, etc, etc....

Mas como o debate de hoje começou com São Pedro, vamos trazer esse ponto de discussão de volta, falando sobre o futuro das hidrelétricas, que são mais de 60% da matriz elétrica brasileira.

O Brasil se orgulha em ter uma matriz limpa e barata, com muita hidrelétrica. Isso é ótimo! Porém, o que estamos fazendo para manter essa fatia da matriz? Cuidamos bem das nossas águas? Discutimos o preço real de se ter água no leito dos rios, ou ainda estamos numa mentalidade antiga, extrativista?

Para se ter água no leito do rio, é preciso conservar, preservando mata ciliares, cuidando das areas ribeirinhas, planejamento a ocupação do entorno dos rios. Precisamos pensar em manter florestas de pé, lembrando que queimada na Amazônia atrapalha a chegada da umidade do ar no Sudeste e Centro-oeste e reduz sim a carga de água que chega a esses rios, e que alimentará os reservatórios das hidrelétricas.

Além disso, precisamos pensar mais e empoderar o debate sobre a gestao das águas. Água é necessário para deixar a conta de luz comportada e reduzir o uso de combustíveis para gerar energia. Mas ela deve favorecer aos seus usos multiplos, como dessedentação humana e aminal, agricultura, saneamento... A água é uma só!

Sim, Camila, infelizmente estamos plantando hoje a crise hídrica que colheremos logo mais. E com recursos cada vez mais escassos e caros, o debate deve ser feito com muita seriedade. A cada dia, arriscamos relegar milhões de pessoas para a pobreza energética se não abordarmos os assuntos de forma crítica.

[Camila] O debate energético inevitavelmente se mistura com o debate econômico, social e ambiental. Continuaremos acompanhando o tema e ajudando a trazer seriedade e pragmatismo ao assunto. Obrigada, Flávia.

Esse e os demais episódios do nosso podcast em português estão disponíveis no site da Argus em www.argusmedia.com/falando-de-mercado.

Visite a página para seguir acompanhando os acontecimentos que pautam os mercados globais de commodities e entender seus desobramentos no Brasil e na América Latina. Voltaremos em breve com mais uma edição do “Falando de Mercado”. Até logo!

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