Falando de Mercado: O primeiro semestre de vendas diretas de biodiesel

Author Argus

O sistema de venda direta de biodiesel entre usinas e distribuidoras, que substituiu os leilões públicos, completou seis meses.

As negociações no mercado à vista enfrentaram baixa liquidez no primeiro bimestre, mas o cenário começou a mudar em meados de abril, com o avanço da safra e volumes diários superando algumas vezes os 6.000m³.

Junte-se a Camila Dias, diretora da Argus no Brasil, e Alexandre Melo, repórter da publicação Argus Brasil Combustíveis, que fazem um balanço sobre este mercado e o que tem influenciado as negociações.

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Transcript

Camila Dias: Olá, e bem-vindos ao Falando de Mercado, uma série de podcasts trazidos semanalmente pela Argus sobre os principais acontecimentos com impacto para os setores de commodities e de energia no Brasil e no mundo.

Meu nome é Camila Dias, eu sou diretora da Argus no Brasil, e no episódio de hoje eu converso com Alexandre Melo, repórter da publicação Argus Brasil Combustíveis, sobre o balanço do primeiro semestre do mercado de vendas diretas de biodiesel e qual é o cenário para o período de julho e agosto. Bem-vindo, Alexandre.

Alexandre Melo: Obrigado, Camila. É um prazer estar aqui mais uma vez.

CD: Alexandre, o novo modelo de negociações de biodiesel no Brasil acabou de completar seis meses. Conta para gente como foi esse processo de transição.

AM: Claro, Camila. Antes, vou apenas recapitular rapidamente que até outubro de 2021 as negociações de biodiesel aconteciam por meio de leilões públicos feitos pela ANP, a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis, e pela Petrobras. Antes de acabar com esse sistema, a agência reguladora e os participantes de mercado discutiram ao longo de 2021 quais seriam os termos para criar o modelo de vendas diretas.

Neste novo sistema foi mantida a periodicidade bimestral para as aquisições de biodiesel, mas a regra permite que 20pc do volume bimestral seja negociado no mercado à vista e os 80pc restantes continuam sendo comprados via contratos. As metas de contratação de volume são definidas com base nos volumes de vendas reportados um ano antes.

Agora, respondendo à sua pergunta, Camila, a transição foi tranquila. No primeiro bimestre, a liquidez no mercado à vista foi pequena porque as varejistas compraram quantidades maiores do produto com receio de alguma ruptura na cadeia de abastecimento. A liquidez semanal média das transações ficou abaixo de 500 metros cúbicos durante o primeiro bimestre do ano.

CD: As usinas e distribuidoras se adequaram facilmente às novas regras?

AM: De maneira geral, sim. Mas este novo modelo de vendas também exigiu que compradores e vendedores lidassem com fórmulas de precificação envolvendo variáveis como o contrato futuro do óleo de soja na Bolsa de Chicago, da taxa de câmbio e do diferencial do óleo vegetal no porto de Paranaguá.

No início do ano, algumas usinas de grande e médio portes decidiram não vender produto nem na modalidade de contrato devido ao receio de prejuízo. Outras distribuidoras regionais também deram preferência para aquisições no modelo de preço fixo e não ficaram expostas ao mercado à vista.

Mas o avanço da colheita da safra de grãos no Centro-Oeste e de cana-de-açúcar no Centro-Sul começaram a contribuir para o aumento da liquidez em meados de abril e atingindo picos em maio e junho.

É fato que distribuidoras como a Raízen, a Sabbá e a Dislub estão fomentando essas transações para pronta-entrega, assim como usinas como a BSBios, Oleoplan, JBS, Granol e Olfar, que estão mais ativas no mercado a pronta-entrega, segundo dados da ANP.

CD: Interessante esta evolução que você nos contou, Alexandre. Como a safra está colaborando para o aumento do volume negociado no mercado à vista?

AM: Realmente, as safras de grãos e de cana estão contribuindo para o crescimento da demanda por biodiesel nos terminais de distribuição em Paulínia, em São Paulo, e Senador Canedo, em Goiás. São duas praças onde a Argus tem indicadores para as transações no mercado à vista, além de Araucária, no Paraná.

Para você ter uma ideia, a quantidade de biodiesel vendida na primeira semana de abril saltou da média de 438 metros cúbicos para 1.045 metros cúbicos na semana seguinte. Na quarta semana de maio, atingiu 2.283 metros cúbicos e subiu para 3.115 metros cúbicos na segunda semana de junho, quando houve um recorde de 6.115 metros cúbicos de negócios reportados no dia 14.

Outro player nacional como a Vibra e regionais como a D’Mais Distribuidora, a Biopetro e a Araguaia Distribuidoras também estão com demanda maior para abastecer os terminais no Sudeste e Centro-Oeste.

CD: E a perspectiva é de que a demanda se sustente para o bimestre que está iniciando agora?

AM: As indicações que temos recebido das distribuidoras e das usinas é de que as negociações no mercado à vista deverão continuar firmes neste início de bimestre, principalmente devido à demanda do agronegócio com a colheita do milho safrinha, o escoamento da soja e o avanço na safra de cana. Estes são catalisadores importantes para as vendas de diesel B.

Grandes e médias distribuidoras já sinalizaram à Argus que estarão mais atuantes no segmento para pronta-entrega para aproveitar as oportunidades em que estes preços estarão mais competitivos que a modalidade de contrato, que normalmente são reajustados semanalmente conforme as variações do contrato de óleo de soja em Chicago, do câmbio e da commodity em Paranaguá. Saberemos se esse cenário se confirmará na primeira semana de julho, quando a ANP divulgar os dados de contratação para o bimestre.

Camila, para o nosso ouvinte ter uma ideia, os produtores no Rio Grande do Sul e no Paraná nos disseram que os preços do biodiesel neste bimestre estarão menores quando comparado ao bimestre anterior. No Rio Grande do Sul ouvimos uma média de R$6.500 por metro cúbico ante R$6.900 por metro cúbico e no Paraná, de R$6.700 por metro cúbico, enquanto entre maio e junho foi de R$7.200 por metro cúbico.

CD: A diferença de preço é bem relevante, Alexandre. Mas isso aconteceu porque a concorrência está maior?

AM: Também, Camila. As distribuidoras têm ampla oferta de biodiesel porque a mistura obrigatória está em 10pc para este ano. Como a capacidade ociosa do setor está em 50pc, a concorrência entre as indústrias das regiões Sul e Centro-Oeste está mais acirrada.

Eu também destacaria como fator que ajuda na queda dos preços do biocombustível a disponibilidade de soja no Brasil, a demanda mais fraca da China por óleo de soja que decretou alguns lockdowns para frear o avanço da Covid-19 e as altas taxas de esmagamento do grão nos Estados Unidos.

CD: Obrigada, Alexandre. Vamos ver como serão então os próximos seis meses desse novo mercado aberto de biodiesel no Brasil.

Esse e os demais episódios do nosso podcast em português estão disponíveis no site da Argus em www.argusmedia.com/falando-de-mercado. Visite a página para seguir acompanhando os acontecimentos que pautam os mercados globais de commodities e entender seus desdobramentos no Brasil e na América Latina. Voltaremos em breve com mais uma edição do “Falando de Mercado”. Até logo!

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