Falando de Mercado: O desenvolvimento do mercado de gás no Brasil

Author Argus

A Argus realizou em junho o Fórum Argus de Comercialização de Gás no Brasil, que contou com debates dos agentes do setor sobre os pontos de fricção desse mercado que dá seus primeiros passos em busca de liquidez.

No Fórum também foi apresentado o resultado de pesquisa realizada pela Argus com agentes do setor de gás.

Junte-se a Camila Dias, diretora da Argus no Brasil, e Flávia Pierry, Editora de Gás e Energia. Elas conversam sobre os principais pontos do debate e da pesquisa.

Fique por dentro de tudo o que acontece no mercado de gás natural brasileiro

Transcript

[Camila Dias] Olá, e bem-vindos ao Falando de Mercado, uma série de podcasts trazidos semanalmente pela Argus sobre os principais acontecimentos com impacto para os setores de commodities e energia no Brasil e no mundo.

Meu nome é Camila Dias, eu sou Diretora da Argus no Brasil, e no episódio de hoje eu converso com Flávia Pierry, editora de Gas Natural e Energia, sobre as percepções do atual momento do mercado de gás natural no Brasil, a partir dos debates do Fórum Argus de Comercialização de Gás no Brasil.

[Flávia Pierry] Obrigada, Camila.

[Camila] Flávia, a Argus realizou em 21 de junho, no Rio de Janeiro, o Fórum Argus de Comercialização de Gás no Brasil, com debates sobre os diversos elos da cadeia produtiva, como oferta, transporte e processamento, e demanda, além de biogás. Quais são os principais pontos de atrito no novo mercado de gás para gerar maior liquidez nesse mercado?

[Flávia] Camila, a sensação é de otimismo no mercado de gás natural, com a percepção de que sim, o mercado conseguiu evoluir após o kickoff de abertura, no dia 1 de janeiro de 2022, com a entrada em operação de novos contratos de suprimento de gás para as distribuidoras, assinados com supridores que não a Petrobras.

Os agentes percebem que há alguma competição, principalmente na região nordeste e em partes no sudeste, apesar de ainda haver entraves como regras mais claras e definitivas para temas como transporte e processamento de gás, além de mais ferramentas de contratação de gás natural e de capacidade de transporte.

No fórum, foram apresentados os resultados de uma pesquisa realizada pela Argus com 83 agentes do mercado, para entender a percepção sobre os atuais entraves para mais liquidez. E os resultados apontam em uma direção principal: a de que há uma demanda reprimida de gás no Brasil, causada por diversas questões.

A primeira pergunta, sobre quais os próximos passos que o mercado de gás precisa dar, resultou na maioria dos respondentes elegendo como a máxima prioridade a “entrada em operação de novos gasotudos de escoamento”.

Sabemos que esse é um ponto sensível do setor de gás. A Rota três, gasoduto de escoamento de gás que vem de campos do pré-sal e levará o gás para ser processado no GasLub no Rio de Janeiro, está com inicio da operação atrasada há vários anos. O setor espera ansiosamente que mais gas possa chegar ao mercado consumidor com o início da operação, que agora tem como nova data prevista o segundo semestre deste ano. Na primeira fase, cerca de 9mn de m³/dia poderão escoar pela Rota 3, chegando ao dobro no ano que vem.

Batendo na mesma tecla, a da necessidade de mais gás, os respondentes elegeram como segunda maior prioridade a “redução da reinjeção de gás natural”. Da mesma forma, esse é outro ponto sensível. Hoje, a produção de gás no Brasil é de 137mn m³/d, e 67mn m³/d são reinjetados, ou seja, devolvidos aos poços petrolíferos, seja por falta de estrutura para escoar esse gás, seja por decisão comercial das empresas produtoras, ou por limitação técnica e questões ambientais.

Na sequencia, aparecem por ordem de prioridade para o mercado de gás a publicação de leis nos estados, a construção de mais gasodutos, a redução do papel estatal, a criação de regras de estocagem de gás, a atualização das regulações da ANP e a precificação de gás no Brasil.

Quando o tema da pergunta é “o que é necessário para o surgimento de um mercado líquido spot de gás no Brasil”, os agentes reforçam a percepção de que há uma demanda reprimida: 27% dos respondentes afirmam que é preciso ter “mais oferta de gás” para que o mercado se torne mais líquido. Na sequencia, 25% dos entrevistados afirmam que é preciso criar competição entre supridores. A atualização regulatória estadual e federal é apontada por 18% dos respondentes. Mais infraestrutura é um entrave ao mercado mais líquido para 9,6%; mais contratos de fornecimento por 8.4%; a definição de tarifas de transporte para carregadores que acessam mais de uma malha de gasodutos é um entrave para a liquidez segundo 7.2% dos respondentes e uma maior oferta de biogás e biometano foi apontado por 3pc dos respondentes.

[Camila] Flávia, e como os novos agentes estão navegando esse novo mercado, que ainda precisa de muitos aprimoramentos?

[Flávia] Mesmo com pendências na regulação federal e estadual, que deverá ser conduzida pela Agência Nacional do Petróleo, Gas Natural e biocombustíveis, a a ANP, e pelas agencias reguladoras estaduais, supridores e compradores de gás estão encontrando formas de realizar negócios, pouco a pouco. As transportadoras têm exercido um papel importante nesse processo, fazendo o “meio de campo” para que as operações aconteçam. Já começamos a ter oferta de serviços de transporte de gás, de capacidade nos gasodutos, sendo ofertado em bases semanais, para permitir operações de curto prazo.

Para integrar as três malhas das empreasas de gás natural e garantir tecnicamente a integração maior entre as malhas – o que ajuda a criar liquidez e competição – as empresas de gasudotos esperam investir mais de R$ 10 billhões nos próximos cinco anos para interconectar malhas e aumentar capacidade de compressão. Elas também estão buscando formas de contratar gas para o balanceamento das suas malhas (ou seja, para manter a quantidade adequada de gás dentro dos dutos mesmo quando um supridor ou comprador causar um desbalanço) de forma mais rápida, com compras em uma ferramenta online, e não mais em chamadas públicas anuais, como acontece hoje.

Mas mesmo assim, ainda há pontos de fricção apontados pelos debatedores e participantes. Por exemplo, o preço do gás é algo que preocupa. Compradores acreditam que com mais oferta de gás, poderiam ter acesso a suprimento de gás com preços menores. Tarifas de transporte e processamento também preocupam.

Outro tema que ressoa entre consumidores são as altas penalidades para quem pensa em migrar para o mercado livre de gás e comprar diretamente da produtora. As punições, como o chamado Take-or-pay, preocupam as industrias que querem comprar gás. As penalidades possíveis que podem acontecer no transporte também tiram o sossego dos compradores de gás, que consideram tais cobranças altas.

E do lado de agentes com posição consolidada, como as distribuidoras, há receio de perda de receitas com a migração de grandes consumidores para o mercado livre.

[Camila] Esse tipo de ajuste parece natural em setores que passam por mudanças estruturais como o de gás.

[Flávia] Exato, Camila. O que vimos nos debates do fórum é o setor entendendo seus novos riscos e pensando em como melhor mitigá-los, computá-los, e buscar se proteger antes de tomar decisões como a de migrar para o mercado livre.

[Camila] Isso também é demonstrado em outro ponto da pesquisa Argus, sobre a precificação de gás no Brasil. Perguntamos qual é a importancia da criação de indicadores de preços de gás no Brasil para o desenvolvimento de um mercado mais líquido e competitivo. E 43% dos respondentes afirmaram que é “muito importante”. 35% consideram “importante”.

E é exatamente aí que entra o trabalho da Argus, de produzir benchmarks que representem o mercado e suas especificidades de comercialização, para ajudar compradores e vendedores em suas negociações e também em seus processos de hedging.

[Camila] Flávia, sabemos que fatores que também afetam a oferta de gás no Brasil estão relacionados à sazonalidade da geração termelétrica. Isso também foi citado no evento entre os participantes.

[Flávia] Sim, Camila. Do lado dos produtores de gás, há “rigidez” da oferta no Brasil, enquanto a demanda é flexível. Uma parte importante da demanda depende da geração térmelétrica, que sobe nos períodos de seca, para complementar a geração hidrelétrica.

Além disso, falta coordenação entre o setor elétrico e o de gás, algo que foi repetido entre participantes do fórum. O Brasil precisa de políticas públicas para colocar o gás no local de combustível de transição na geração termelétrica, de forma a dar segurança para a matriz elétrica cada vez mais interruptível, com o crescimento das fontes eólica e solar de geração elétrica. Para alguns participantes, o gás deveria ter um papel maior na matriz elétrica, já que eventos climáticos extremos estão deixando mais incerta a capacidade das usinas hidrelétricas de serem a bateria do setor para compensarem a interruptibilidade de outras fontes.

Mas para isso, o setor elétrico e o de gás precisariam caminhar juntos. Políticas públicas precisam olhar para o tema, assim como a parte de operação. Hoje, a operação de gás e a eletrica está descasada. Por exemplo, a definiçao da programação de gás é fechada diariamente às 19h, enquanto a elétrica é as 21h. Apenas para citar um pequeno exemplo...

[Camila] Muito obrigada, Flavia. Vamos seguir acompanhando tudo isso de perto e observando a criação de um mercado competitivo de gás no Brasil.

Esse e os demais episódios do nosso podcast em português estão disponíveis no site da Argus em www.argusmedia.com/falando-de-mercado.

Visite a página para seguir acompanhando os acontecimentos que pautam os mercados globais de commodities e entender seus desobramentos no Brasil e na América Latina. Voltaremos em breve com mais uma edição do “Falando de Mercado”. Até logo!

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