Falando de Mercado: Tempo seco muda estimativas para safra de milho

Author Argus

Áreas produtoras de Mato Grosso tiveram perdas de 50pc na produtividade em função da falta de chuvas. O tempo seco também afetou lavouras de outras regiões do Brasil.

Junte-se a Camila Dias, diretora da Argus no Brasil, e Alessandra Mello, editora assistente da publicação Argus Brasil Grãos e Fertilizantes. Elas discutem o o real tamanho desta quebra e como isso afeta as perspectivas para as exportações de milho neste ano.

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Transcript

Camila Dias: Olá e bem-vindos ao ‘Falando de Mercado’ – uma série de podcasts trazidos semanalmente pela Argus sobre os principais acontecimentos com impacto para os setores de commodities e energia no Brasil e no mundo. Meu nome é Camila Dias, sou diretora da Argus no Brasil. No episódio de hoje eu converso com a jornalista Alessandra Mello, editora assistente da publicação Argus Brasil Grãos e Fertilizantes sobre os cortes recentes nas previsões para a produção de milho no Brasil. Alessandra, bem-vinda.

Alessandra Mello: Obrigada, Camila, sempre bom participar do Falando de Mercado.

CD: Alessandra, este ano parece que o clima está sendo bem mais favorável ao milho, mas ainda assim podemos ter surpresas no resultado desta safra de inverno?

AM: Sim, Camila, algumas mudanças em relação à expectativa inicial já estão sendo vistas. A Argus vinha trazendo um alerta sobre isso com relatos de produtores da região Centro-Oeste que enfrentaram tempo muito seco em períodos cruciais para o desenvolvimento do milho e o levantamento da Companhia Nacional de Abastecimento, a Conab, divulgado no dia 12 de maio, confirmou esta tendencia de leve queda na comparação com a expectativa inicial. A segunda safra, a maior do país, está prevista agora em 87,7 milhões de t, abaixo da estimativa de 88,5 milhões de t do mês passado, mas 44,5pc mais alta do que na safra passada.

CD: Então quer dizer que apesar dos problemas climáticos, ainda vamos ter um super safra de milho?

AM: É, tudo indica que sim, e são dois os fatores principais para este aumento significativo na produção de milho. O primeiro deles é o avanço da área plantada. Este ano nós tivemos meio milhão de hectares a mais cultivados com milho no Brasil, isso, claro, se olharmos para as três safras juntas. A área total deve ficar em 21,5 milhões de hectares, ante 19,9 milhões de hectares na safra passada. Tanto a segunda safra, que é a maior do país, quanto a terceira, que fica concentrada nas regiões Norte e Nordeste, estão contabilizando avanço de área de quase 9pc. E mesmo a safra de verão, que já está sendo colhida há algum tempo, mais concentrada na região Sul, também teve aumento de 5pc na área plantada.

CD: E o que mais é determinante para que se colha esta safra recorde de milho?

AM: É a combinação de plantio dentro da janela ideal e clima favorável. Isso foi visto nos primeiros meses de desenvolvimento da segunda safra de milho especialmente no Paraná, que é o segundo maior produtor do país. Muito diferente do cenário devastador da safra passada, desta vez soja foi colhida cedo, o milho também foi plantado logo em seguida e não faltou chuva no Paraná. Ao contrário, até houve episódios pontuais de chuva muito forte, com perdas localizadas. Mas de modo geral a safra de milho do Paraná está muito boa. Isso também garante uma excelente produtividade na maioria das regiões produtoras do país.

CD: E no estado de Mato Grosso, como está a situação do milho?

Em Mato Grosso a previsão para a segunda safra foi revisada para baixo no início de maio, caindo para 39,34 milhões de toneladas (t), ante 40,4 milhões de t projetadas no mês anterior, de acordo com o Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea). Conversei com lideranças da Aprosoja no estado e também com o vice-presidente da Famato, Federação de Agricultura de Mato Grosso, o Marcos da Rosa, e eles acreditam que haja um novo corte na próxima estimativa, e a safra deve cair pra 36 milhões de toneladas, quer dizer, haveria uma quebra de 10pc em relação ao que se esperava para o milho no estado lá no início da safra. Isso ocorre porque a chuva na safrinha foi muito irregular, em algumas áreas choveu bem e em outras quase nada. Na época da colheita da soja choveu muito em Mato Grosso, por isso lá algumas áreas de milho foram plantadas mais tarde. E são estas lavouras que sofrem mais com o estresse hídrico. Em Diamantino, por exemplo, uma importante região produtora, que ficou mais de 30 dias sem chuva, as perdas chegaram a 50pc.

CD: Ainda existe risco de novos cortes nas estimativas?

AM: Sim, sempre existe. Nesta última semana eu vi diversas consultorias privadas falando em redução na estimativa para a segunda safra. A Agroconsult por exemplo está começando agora a expedição pelas áreas produtoras, o chamado Rally da Safra, mas já na largada anunciou que estava reduzindo para 87,6 milhões de toneladas a estimativa da segunda safra, foi um corte de 4,6 milhões de t em relação à projeção anterior. O número esperado pela consultoria para a safra total do Brasil já está abaixo do último projetado pela Conab que foi de 114,6 milhões de t. A Agroconsult espera agora uma produção de 113 milhões de t. E há previsões no mercado ainda mais pessimistas. A consultoria AgResource projeta 84,4 milhões de t na segunda safra e uma produção total no ano de 108 milhões de t.

Esta última onda de frio que afetou as regiões Sul e Sudeste do Brasil também representava uma grande preocupação para o milho. Estimava-se que, se houvesse geadas severas, que só o Paraná poderia perder quase 5 milhões de toneladas. Mas isso não ocorreu, a temperatura baixou mas como havia muito vento e a geada foi moderada, não houve prejuízo significativo na produção.

Então a surpresa virá mesmo à medida que avançar a colheita nas áreas afetadas pela seca em Goiás, Mato Grosso e Minas Gerais, principalmente.

CD: E se o cenário se mantiver desta forma, o que devemos esperar para as exportações de milho este ano?

AM: Bom, é fato que este ano, apesar do problema climático temos muito mais milho disponível para a exportação. Além disso, o conflito entre Rússia e Ucrânia mudou completamente o cenário internacional. Para se ter uma ideia, quatro países até o ano passado respondiam por 85pc das exportações mundiais de milho: Estados Unidos, Ucrania, Argentina e o Brasil. Com os portos da Ucrania interditados, os países compradores de milho estão comprando mais de outros mercados, principalmente destes fornecedores alternativos como o Brasil.

Outro fato curioso: abril de 2022, foi o melhor abril da história da exportação brasileira de milho. Foram quase 703 mil toneladas embarcadas. No mesmo mês do ano passado o país exportou menos de 131 mil t, até porque é um período em que, tradicionalmente, o Brasil não tem grandes volumes de milho para exportar. Em maio pode ser que um novo recorde para o mês seja alcançado. A Associação Nacional dos Exportadores de Cereais, a Anec, está prevendo o embarque de quase 1,3 milhão de t.

Agora você me perguntou para o ano como um todo. Eu conversei com o Marcos Araujo, sócio-diretor da Agrinvest commodities, eles estão prevendo que o Brasil exporte 43 milhões de t em 2022, o que seria o patamar recorde alcançado pelo país em 2019. Mas caso esta produção menor se confirme com o tempo seco, a consultoria já admite revisar para algo próximo de 41 milhões de t. Enquanto isso, a Conab, em seu ultimo relatório, previu 37 milhões de toneladas para as exportações de milho. Mesmo assim, será um excelente resultado, podendo ser o segundo melhor da história. Só não dá pra comparar com o ano passado, quando houve aquela quebra gigante na safra por causa do clima e o Brasil exportou praticamente metade do que está se esperando agora, algo em torno de 20 milhões de t.

CD: Alessanda, a Argus acompanha diariamente o mercado de prêmios de milho no cargo market Santos e Tubarao. Este cenário mais otimista para as exportações já reflete nos preços que publicamos diariamente?

AM: Sim, Camila, os prêmios para embarque em agosto por exemplo que antes do conflito na Ucrania eram indicados em pouco mais de 60 ¢/bushel sobre os contratos da Bolsa de Chicago, em meados de março já estavam acima de 120 ¢/bushel. Agora, em maio, com a expectativa de que realmente haverá um bom excedente de produção para exportar, os prêmios para embarque em agosto vêm se mantendo mais próximos de 70 ¢/bushel, o que é natural. E com isso o milho brasileiro está muitas vezes ficando mais competitivo do que o norte-americano, atraindo cada vez mais compradores do Irã, do Egito, do Japão e também cada vez mais da América Latina, como por exemplo da República Dominicana. Deve ser um ano bem melhor para o mercado do milho, nós temos visto um maior volume de negócios no cargo market, que vem apresentando maior demanda. O nosso comentário e os prêmios do milho são publicados diariamente na plataforma Argus Direct, para assinantes da Argus e também integram o relatório diário global de agricultura, Agrimarkets. Vale ficar ligado porque o mercado do milho deve se movimentar bem neste segundo semestre.

CD: Alessandra, muito obrigada pelas informações, até a próxima.

AM: Até a próxima.

Esse e os demais episódios do nosso podcast em português estão disponíveis no site da Argus em www.argusmedia.com/falando-de-mercado.

Visite a página para seguir acompanhando os acontecimentos que pautam os mercados globais de commodities e entender seus desdobramentos no Brasil e na América Latina. Voltaremos em breve com mais uma edição do “Falando de Mercado”. Até logo!

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